O dia amanheceu cinzentão ! Estava encoberto, com períodos de chuvisco e um frio que não vinha nada a calhar. As previsões assim o diziam, mas eu, preferi acreditar naqueles dias primaveris das vésperas e... senti-me enganado pelo meu sentido de adivinhação com base nas aparências. É para ver se aprendo. Na maratona também as coisas acontecem assim.
Com um polo mais “descartável” sobre o meu equipamento (Açoreana Clube Banif) e em passo de aquecimento, eu e o meu amigo Faísca fomos para a zona de partida, onde chegámos cerca das 8,30. Fomo-nos chegando o mais possível para a linha de partida, até que, a compactação progressiva dos corredores, nos retirou a mobilidade por alguns minutos.
Sinto um “toque” nas minhas costas e ouvi uma voz conhecida que dizia : "marcação cerrada! " Era o nosso amigo
Nuno Kabeça (acompanhado do Carlos Ferreira) que só um milagre (se calhar do Nuno Álvares Pereira, que ia ser canonizado neste dia,eheheh –“...
O Nuno fero que fez ao rei e ao reino um tal serviço...) naquele mar de gente, e sem nada combinado, permitiu que saíssemos juntos.
Desta vez, e dadas as condições atmosféricas, não houve paraquedistas a saltar.
O speacker deseja boa prova a todos, ouviu-se um tiro e em marcha, pelo Passeo de la Castelhana acima, iniciava-se a 32ª Maratona Popular de Madrid, com perto de 10000 corredores (acho eu).
Cerca de um minuto e meio, foi o tempo que demorámos a iniciar a contagem no arco da “Salida”.
Cada um fica, então, entregue a si mesmo, correndo conforme o espaço que tem à sua frente, avaliando a reacção respiratória e a vontade de progressão “sustentada”. Nessa altura, andávamos ainda à procura do andamento. A chuva ia engrossando e as mãos e braços iam gelando. A partir dos 5km já ninguém me “estorvava” para ir mais depressa, a não ser eu próprio. O Faísca, que tinha um ritmo mais rápido que o meu, estava constantemente a olhar para trás e a abrandar , até que lhe disse para ir no ritmo dele, pois seria mau para os dois que ele continuasse naquelas mudanças de ritmo. E foi à sua vida. De facto – a menos que se vá fazer uma maratona mesmo na “desbunda”- é errado “copiar-se” o andamento dos outros. O nosso desempenho obedece a "cálculos", cujas “variáveis” são avaliadas por cada um a cada momento.
Parou de chover, ia perto dos 12km. Nessa altura alcanço o balão das 3,45! Sabendo eu que estava a andar entre 4,55 e 5,05 por km e que apenas tinha demorado minuto e meio a passar na linha de partida, havia qualquer coisa que não estava bem.
Cerca dos 16, alcanço o balão das 3,30 (eram dois, um “guiado” por uma rapariga e outro por um rapaz)! Um pelotão compacto reunia um grande número de candidatos àquele tempo. Como é que em 3 ou 4 km conseguia “anular” um déficite de 15 minutos no tempo final ? Bom...Pensei em aguentar-me ali, pois tratava-se de uma passada confortável e eu não deveria meter-me em aventuras.
Os corredores dos transportes públicos (que eram delimitados por um material plástico de côr azul e que “apareciam e desapareciam”) obrigavam a uma atenção redobrada por parte daqueles que corriam em pelotão compacto. Passámos nas Puertas del Sol onde os incentivos constantes do público se tornavam arrepiantes, o mesmo acontecendo frente ao Palácio Real.
A pouco e pouco reparei que o “bloco” das 3,30 se “dissipou” e os próprios balões estavam a atrasar-se, pois eu continuava a andar na casa dos 5 ‘/km. Cerca da Meia Maratona (1,43) percebi que havia razão para que o balão tivesse abrandado. Mas se eu me sentia bem, ia procurando manter-me no ritmo. Aos 22km avisto o João Hébil e fui-me aproximando dele. Talvez inconscientemente tenha acelerado para o “apanhar” e, como estávamos a descer e eu continuava bem, apenas o cumprimentei e segui no meu andamento, na esperança de me manter defendido da “crise”.
25 km- Tudo fino. 30km: igual; 37 km idem idem. Olhava para o relógio (atento apenas aos segundos para não estar a fazer muitas contas, pois tendo 5’/km como referência era fácil saber se estava em aceleração-pouco provável- se em quebra –muito mais provável.) e tudo me indicava que me estava a portar à altura. Olho para trás e não avisto o balão das 3,30!
“Devo estar a fazer uma prova do caneco!” – pensei eu !
38,5km : oiço um “vamos, senhor!ânimo!” Era a rapariga do balão!!!! Não foi propriamente um “susto” que apanhei. Foi pior! Aquele “efeito surpresa” arrasou-me psicologicamente, pois eu pensei que o malfadado balão tivesse ficado lá bem para trás.
“Travaram-se-me” as pernas e , mesmo sabendo que já estava a contornar o Parque do Retiro dos Jerónimos, onde estava instalada a meta (mas que é bem grande) não consegui ultrapassar este “baque”. Sabia que o que tinha a fazer era ir “aguentando o barco” até entrar no último km quase todo dentro do Parque e pensar que o ambiente daquela chegada far-me-ia esquecer estes 3 últimos km que são mesmo para esquecer (ou melhor, para lembrar!).
Tempo final líquido : 3,31,33 !
Depois, dão-nos a medalha, um resguardo de plástico para nos proteger do frio (e muito jeito me deu), sumos, cerveja, água, fruta . Desta vez não havia melancia, pelo que fui eu que fiquei com o “melão” eheh.
Há mais a dizer sobre esta Maratona, mas este apontamento já vai longo. Voltarei ao tema.