segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Peregrinação" a S.J.Lampas

Está a fazer 3 anos, quando li no forum O Mundo da Corrida, um dos mais espectaculares textos que alguma vez li, a propósito da Meia Maratona de S. João das Lampas, escrito pela pena do nosso grande amigo Joaquim Margarido, que nos tinha visitado pela 1ª vez.
É sempre tempo de recordar o que há de bom. Muito obrigado Margarido.
Convido-vos a (re)ler esta preciosidade:



Joaquim Margarido a terminar a 30ª Meia Maratona de S.João das Lampas, ladeado pela Margarida, sua filha e pelo amigo Orlando Duarte

(Do que vi e ouvi em S. João das Lampas, aonde fui por mando d’el-Rei, aqui vos dou conta para que saibais em quão esforçados trabalhos se metem aqueles que afrontam as temíveis rampas, ali postas pelos desígnios do Bendito e para desgraça dos infelizes.)
Aos nove dias do mês de Setembro do ano de 2006, desembarquei em S. João das Lampas, que dista uma légua do Porto do Magoito, onde as mulheres se mostram em parte ou no seu todo, que logo fiquei com a cabeça mui baralhada e com a alma em grande desassossego. E sendo chegado, de pronto me acerquei da fortaleza de que é senhor D. Fernando de Andrade, capitão da terra, o qual, tanto que soube que era chegado, me veio buscar em pessoa, e abrindo-me os braços, me estreitou com sincera amizade, e me mandou entrar para uma espécie de igreja e com cerimónias de cortesia de seu uso me mostrou o vasto espólio de três décadas de sua festa.

E depois de haver já muito tempo que aqui estava, me fui despedir dele e muito lhe aprove que trouxesse um dorsal e me fosse ao terreiro onde, para grande espanto meu e no meio duma grande grita, do céu desciam já homens agarrados como que a uns boletos e o povo em grande animação saudava aqueles homens, e eu, assaz suspenso e pasmado, dei muitas graças a Deus Nosso Senhor que por sua misericórdia os quis salvar tão milagrosamente que se fosse eu me morreria da queda ou ainda antes, que do medo me mijaria a bexiga.

E mui animado com o que vi, logo percebi que já todos se preparavam para a festa que mais não era que correr quatro léguas e um quarto por sítios onde Deus Nosso Senhor nunca andou, nem se atreveria a andar, tão grande a empresa e tão forte o penar, que antes morrer no madeiro que subir e descer caminhos de tão grande desaventurança.

E o Sol caminhava já para o seu ocaso quando um nobre de terras mais a norte, de nome D. Carlos de Lopes, senhor de grandes feitos e de muitas conquistas de ouro, prata e bronze, empunhando um pequeno arcabuz, deu uma salva que logo desataram todos a correr para a frente que mais pareciam gente de briga a fugir do Coja Acém. E em menos de um credo se desapareceram para logo voltarem a aparecer e a desaparecer de novo.

E enquanto aguardava que viessem novamente, por ali me fiquei, e pude ver como esta gente de S. João das Lampas tem por conta estimável o Santo Nome do Altíssimo, que lhe erigiram não pequena igreja e logo em frente uma não menos pequena estátua aonde se representam as gentes em seu devido trabalho. E estando eu preso em meus pensamentos logo se me deu em cismar numa trova que em altos gritos saia dumas caixas negras e que de estranhas falas e não menos estranhas intenções, falava em pôr o carro numa apertada arrecadação de senhora da vizinhança. Que, como é bem sabido, se guardam carros em arrecadações, mas largas, que el-Rei não usa para seus proventos estreito porto e sempre prefere a Doca de Leixões ou mesmo a Barra do Tejo para fazer arribar sua não pequena nau.

Como as minhas indagações de procurar resposta para tão estranho cometimento se mostrassem de todo infrutíferas, regressei ao terreiro da festa onde se anunciava já a chegada dos primeiros com o estrondo dos tambores, bacias e sinos e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados do que parecia ser muitos pelouros de artilharia, e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que faziam as carnes tremer de medo.

E logo na frente, um santo cristão, com o nome do Bendito, em cujas pernas parecia haver a força de catorze elefantes, que por Nossa Senhora do Outeiro de Malaca se conseguiu afastar de dois cafres que vinham mais atrás e que arremetendo contra ele, muito ateimavam em pôr-lhe a mão. Destes três e de mais uns quantos, porventura bem poucos, quis Deus Nosso Senhor que chegassem em bom sossego, trazidos por ventos mansos que parecia que nem tinham passado trabalhos tão esforçados. Mas a grossa fileira que os sucedia mais parecia vir da peleja, tão triste e miserável era o estado em que todos vinham, e tão disformes nas figuras dos rostos que metiam medo, e tão fracos que nem a fala podiam bem lançar pela boca. E depois de serem recolhidos e agasalhados o melhor que então foi possível, todos se passeavam por ali como que suspensos e alguns vinham tão arvoados de suas cabeças, que caíam no chão com uns estremecimentos de maneira que por uma grande hora não tornavam em si.

E procurei indagar de tanta desdita ao que um nobre, de seu nome D. Orlando de Duarte, me afirmou que, a ter de penar de novo as penas das malditas rampas, preferia regressar à cidade de Moca aonde havera estado cativo do Soleimão Dragut e ser de novo levado por toda a cidade em modo de triunfo, com grandes gritas e tangeres, onde até as mulheres encerradas, e os moços e meninos lhe lançavam das janelas muitas panelas de ourina, por vitupério e desprezo do nome cristão. E também D. Eduardo de Santos, Administrador de Portal e homem habituado a peregrinações de quase três dúzias de léguas, ali andava às voltas com o olhar parado, não se cansando de repetir: “Sabe Deus quão arrependido eu estou disto!”. Conquanto uma pobre mulher de nome D. Ana de Pereira, chorando com grandes urros implorava que não lhe fizessem mais mal, que era cristã como qualquer de nós, misturando nestas palavras outras bem pouco sensatas e de difícil entendimento sobre uma vaca que jazia morta à beira da estrada.

E até D. Jorge de Teixeira, um nobre senhor dono de muitas festas em seus redutos e conhecido por a si mesmo se designar por “um homem do Norte” e por ter tanto desprezo pela moirama que enxota filhos de Mafamede dos seus palanquins como quem enxota moscas, ali estava posto em grande consternação à vista daquela pobre gente. E tocado também ele pelo dom de misericórdia do Bendito, se apiedou de todos eles e a todos pôs à disposição transporte para que viessem a sua festa aos quinze dias do mês de Outubro, que muito lhe gostaria vê-los e dar-lhes tratos dignos, cobrindo-os com belas roupagens estampadas e coroas de loiros. E todos olhavam para ele com muita desconfiança pois, como é sabido, nos redutos de que é capitão e senhor, o mais que se dá são as fedentinas vísceras dos animais aboiadas num caldo de feijão ao qual chamam de “prato regional”.

Mas ao final, ajuntando-se muito a um lado da igreja, todos louvaram o Santo nome do Bendito que, do meio de todos estes perigos e trabalhos, os tirou sempre em salvo, todos achando que não tinham tanta razão de se queixar por todos os males passados, quanta de lhe dar graças por este só bem presente, pois os quis conservar em vida. E também D. Fernando de Andrade, dando muitas graças a Deus, lhes distribuía não pouco avultados bens que, no seu todo, somavam oito mil taéis de prata, e cinco boiões grandes de almíscar, e muita seda, retrós, cetins, damascos e barças de porcelanas finas. E com isto se despediram uns dos outros, e se recolheu cada um à sua estância, por serem já quase as nove horas da noite, em que o quarto da prima se acabara de render, e os capitães da guarda vigiavam já para que tudo se quedasse conforme ao anterior estado do terreiro da festa. E me recolhi eu também, não sem antes pernoitar nas praias da Ericeira, a cujos banhos el-Rei se rende não poucas vezes em cada Verão.

Por ser isto verdade, vos deixo com este relato e vos exorto a que não desanimeis com os trabalhos da vida, para deixardes de fazer o que deveis, porque não há nenhuns trabalhos, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana ajudada dos favores do divino. E por outra me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente, por usar também comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos os meus pecados, porque eu entendo e confesso que por eles nasceram todos os males que também a mim me atormentam, e dela as forças, e o ânimo para os poder passar, e escapar deles com vida.






Joaquim de Margarido

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

TNLO -Trail Nocturno Lagoa de Óbidos -Texto

Falava-se que um tal “Trail” havia montado o cerco ao Castelo. Quase oito léguas era o seu tamanho (!) e poucos aqueles que se dispunham a fazer-lhe frente. Era temível a sua fama, mas o “alcaide”, homem habituado a pelejar em outras paragens contra inimigos semelhantes, tinha lançado o apelo à sua gente. Foram muitos os que responderam, pelo que, naquela noite e à hora marcada, centena e meia de "guerreiros" concentraram-se na praça para ouvir as últimas instruções do "capitão" e se lançarem para fora da muralha, destemidamente determinados a afugentar o "inimigo".
Houve até quem reforçasse a sua coragem com uma “ginjinha”, grande especialidade da Vila, e ouvisse palavras de estímulo por parte das simpáticas vendedoras que, atrás de pequenos quiosques de madeira que ladeavam a Rua Direita, apregoavam o melhor nectar e o davam a provar a quem passava.
Ao sinal, (que mesmo sendo um simples estalido, tinha o efeito sonoro e bélico de um toque de clarim) toda aquela massa humana, saía em bloco pela porta sul do Castelo, para se lançar naquela aventura na noite, em busca... não se sabia bem de quê. Era grande o espanto de quem via passar aquela formação em que cada um levava o seu “archote” na fronte, qual unicórnio luminoso, que tornaria visível os trilhos e não trilhos, por onde se deveria passar, para cumprir as instruções da "chefia".

Bom.... feito este “retrato” (já sabia que não me aguentava muito tempo neste “registo”) passemos ao relato deste TNLO.

Cerca das 20,30h, junto à entrada principal de Óbidos, nas “Portas da Vila”, até parecia que tinhamos marcado encontro, pois ali afluiram muitas caras conhecidas, que hoje assumiam a condição de “trailers da noite”. Foi aí que jantámos, após o que nos encaminhámos para o interior daquela relíquia urbana da idade média, onde, na praça principal estava montada uma tenda que era o Secretariado da Prova. Levantam-se os dorsais, esclarecem-se dúvidas, é feito um “brieffing” e é dada uma partida simbólica, para que, todos corrêssemos agrupados até ao exterior da muralha . O Jorge Serrazina e o António Miranda “punham travões” na coluna pois a partida efectiva só iria ser dada lá fora, o que aconteceu logo que parámos.

Frontais a iluminar o caminho, o pelotão rapidamente se desfez em pequenos grupos, que se colocavam em fila indiana sempre que se estreitavam os trilhos. Fui tentado a olhar para trás várias vezes para ver o efeito de tanto “pirilampo” na escuridão, mas a prudência aconselhava-me a dar mais atenção ao solo que pisava. Os que iam à minha frente – a maioria – destacavam-se não pelos frontais (que projectavam a luz para a frente) mas pelos reflectores que tinham nos sapatos ou no equipamento. Havia-os de vários tipos e o efeito era engraçado. Tentei não me atrasar em relação a um grupo de 6 atletas, para ver se não ficava sozinho na altura em que iamos entrar na floresta, onde os caminhos não estavam desenhados e qualquer desatenção poderia fazer-me sair da rota que estava assinalada por fitas vermelhas (mas que não eram reflectoras) e por setas (essas sim)., Embora soubesse que os companheiros do grupo (de que conhecia o Duarte e o Luis Oliveira) têm um andamento muito superior ao meu, achei que conseguia acoompanhá-los. No 1º abastecimento (10km) enchi a garrafinha de água que levava na mão (e que foi comigo até ao fim) e prosseguimos, agora a descer até às margens da Lagoa. Uma 1ª dúvida sobre o caminho a tomar, mas lá atinámos. O facto de o grupo ter crescido –já éramos mais de 12- ajuda muito nas situações duvidosas.
Os quilómetros iam passando (e sempre assinalados de 5 em 5). Entre os 10 e os 20Km fiquei novamente sozinho, pois receava ir com quem me parecia demasiado rápido, mas também não queria ir demasiado lento, pois também sei que o tempo de corrida só por si, tambem causa “estragos”. E lá fui passando por alguns que não se aperceberam a tempo que andavam em “más companhias” e já começavam a pagar o esforço (Estás bom, Jorge Pereira ?)
Na praia, o abastecimento dos 20Km. Aqui, passei eu pela grande Glória Serrazina, verdadeira referência em provas desta natureza e pensei que até não ia muito mal, pois ainda me sentia seguro. Seguia-se um troço de corrida pela areia solta e depois... a subida da duna ! Aqui, por cada passada de 50cm que déssemos apenas progredíamos 20 ! E nunca mais chegava lá acima. Talvez uns 30m à minha frente (neste caso, acima de mim) ia um grupo de 4 ou 5 atletas e eu pretendia chegar-me a eles. Quando finalmente chego ao cimo da duna, não vi ninguém! E agora? Havia ali um pequeno largo com várias saídas e eu sem saber qual é que devia seguir, pois não encontrava fitas nem setas! Vou esperar por quem vem lá para trás, ou meto-me por onde me parece mais provável ? Estupidamente, fui pela 2ª opção e, à medida que fui avançando, estranhava não me aparecerem sinais onde deveriam aparecer. Cheguei a uma estrada de alcatrão, talvez a uns 300m! Vi que o melhor era mesmo retornar ao cimo da duna, onde vinha aquele primeiro grupo em que eu me tinha integrado (do Duarte e do Luis Oliveira). Sem ver o sinal que deveria ter visto quando lá passei a 1ª vez, limitei-me a seguir o grupo e entrar, de novo, na corrida.
Seguia-se a parte mais perigosa do percurso: piso ondulante, de areia, com pequenos arbustos e raizes a atravessarem-se entre as passadas e à direita, ali a pouco mais de um metro, o precepício para o mar que “rosnava” lá em baixo, metendo respeito! (Oh Sr. Serrazina, Oh Sr. Miranda : não sendo aquela passagem nenhum trilho definido, não poderia ela ter ficado um bocadinho mais afastada de tão perigosa linha?Merecem nota máxima em tudo, menos nisto ).
Os sapatos estavam cheios de areia, mas não ia parar, porque não queria ficar sozinho pois já tinha tido uma má experiência.
No abastecimento dos 24km, aí foi para relaxar um bocado: tirei a areia dos sapatos, bebi água, enchi a garrafa para o caminho e comi melancia que nem um desalmado. Tão bem que me soube! Uns demoraram-se pouco e arrancaram; eu esperei por alguém que, afinal, parecia que vinha, mas não vinha! Conclusão: “alone again, naturaly”. Os da frente tinham “desaparecido” todos e de trás há uma luzinha que se vem aproximando de mim e que me diz qualquer coisa sobre S.João das “Rampas”! Vi logo que era alguém que me conhecia. Era o Manuel Azevedo e, em corrida ou a passo quando o declive era acentuado, lá fizemos alguns quilómetros juntos. Juntaram-se a nós outros atletas, mas quando chegámos ao alcatrão, o Azevedo avançou com outro companheiro e perdi-lhe o rasto. Os outros acabaram por ficar para trás de mim.
30Km. As pernas começavam a “acusar” um bocadinho e obrigavam-me a uma determinação mais forte. O piso agora era bom: caminho de terra batida, completamente plano. Passo por alguns atletas que iam a andar e que não se preocuparam nada que eu os ultrapassasse.
Último abastecimento : perguntei quantos km faltavam: 5 ou 6 - diz-me a miúda !
Estávamos na fase de aproximação ao Castelo! Uma aproximação lenta, é certo, mas era aproximação. Sentir isso punha-me confiante. Curiosamente, vou ganhando posições a alguns que tinham sido mais “atrevidos” que eu. Chegado à passagem de nível, o último grande desafio: subir toda aquela rampa em escadaria, para finalmente “conquistar” o Castelo. A passo, claro está, pois se me contassem que naquella fase alguém ousaria subir aquilo a correr, eu não acreditaria (mas parece que houve!). Já junto à muralha, uma outra escadaria, esta com corrimão de corda, que muito ajudou a transpô-la. A cota mais alta estava atingida. Só faltava contornar a muralha por alguns metros e entrar triunfalmente naquela portinha em ogiva, que parece um nicho de santo, que serviu de excelente enquadramento às imagens que o Orlando Duarte captou.
Agora só era preciso respirar um bocado, estabilizar o “equilíbrio” gástrico esperando que passassem as náuseas fugazes (minhas companheiras inseparáveis nestas corridas mais esforçadas) e dirigir-me para a mesa grande cheia de coisas apetitosas. Perguntei a alguém o que é que era “aquilo” que estava num tabuleiro !? Quando me respondem que era melancia, é que eu tomei consciência que qualquer coisa não estaria a funcionar bem, pois não tinha reconhecido aquilo que mais me apetecia. “Abanquei “ ali como que em “penitência” por tamanha ingratidão e só não comi mais por “medo” de ter que a “devolver” à mãe-natureza por via diferente da esperada.

Assim foi a “guerra” em que, afinal, o tal “trail” não apareceu. Nesta noite, o “inimigo” permaneceu “escondido” aos olhos de centena e meia de homens e mulheres que o procuraram durante horas a fio. “Inimigo? “Que inimigo?” – Podi-ó chamá-lo!!!???

TNLO -Trail Nocturno Lagoa de Óbidos


Por agora, apenas algumas fotos da Leonor e Orlando Duarte. Depois virá o texto.
Adianto apenas que demorei 4,29,54 e fiquei na 77ª posição (como se isso fosse muito importante...).
Os resultados completos estão aqui.
Mas que foi uma experiência a repetir, ninguém tenha dúvidas.


(foto de Susana Adelino, no fim do "calvário" da última escadaria)








terça-feira, 4 de agosto de 2009

TNLO -Trail Nocturno Lagoa de Óbidos


Esta vai ser a nova experiência do próximo fim de semana.
Diga-se que só ontem é que "enfiei" isto na cabeça e me inscrevi.
Sempre são 37 km sem ver bem onde é que vou pôr os pés.
É verdade que está lua cheia! Mas se o céu estiver nublado ? O frontal será suficiente ?


Nas terras do Miranda e Serrazina
Circundando a idílica lagoa
E em fundo a muralha fernandina,
Há um TNLO que se apregoa
E há-de ficar gravado na retina.
(Espera-se que o luar tenha luz boa
Pois se em vez de luar estiver de breu
Não há frontal que valha, digo eu…)

De prémio bastará um abraço amigo,
Jamais “certificados” ou “diplomas”
Pois com tais documentos eu me intrigo
Ainda que fiquem escritos entre comas;
Na noite o incerto e incógnito perigo
Ajuda a uns trambolhões e … hematomas
Mas esp’ramos p’la alegria da chegada
Sem a “Certidão de Óbidos” passada.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

U.M.A. Corrida "Infinitamente" longa, linda e irresistível





Uma brisa suave e fresquinha vinda da frente, temperava os efeitos escaldantes do sol que dava nas costas.
A um ritmo crescente, demos por nós a fazer 6,05/Km, o que excedia largamente as previsões e nos fazia recear vir a “pagar a factura” lá mais para a frente. Abrandámos e fomos “segurando a coisa” nos 6,30-6,45/km . É que o piso era bom e a tentação de responder ao facilitismo era grande. Passa a Rute com o Luís Parro quando estavam percorridos cerca de 10 Km . Vinham bastante bem e rapidamente “desapareceram”.
Fui ver o que se passava com a mochila. Não descobri a anomalia, mas a água que tinha já era pouca. Numa das Praias lá estava o Zen a incentivar a malta… e que bem sabe uma palavrinha de apoio. Também o meu colega de equipa, André Quarenta, me foi dar uma “forcinha” ( e até nos tirou uma foto).
Perto dos 28km, o João começou a ficar para trás. No abastecimento (28,50Km) apenas aceitei uma garrafa de água, pois na outra mão levava uma de Isostar. Seria suficiente. Vou ao tubo para um golinho de água e… só bolhas. Tou feito! E eu que só trouxe uma garrafa! Estava condenado a poupá-la.
Noto que nos vamos aproximando do Luís Parro, que, entretanto já vinha sozinho, e passámo-lo durante uma “paragem para libertação de líquidos”.
À medida que a distância ia sendo percorrida, notava-se a necessidade de apelar cada vez mais à concentração. Olhos em frente, a pala do chapéu, fazia-me pensar que me aproximava de qualquer coisa por onde passaria por baixo. Levantava a cabeça e era apenas o céu que me tapava. Do lado esquerdo, o mar, calmo e suave, convidava a uma banhoca. Não podia ser. Diz o Jorge : - Olha, já estamos a andar a mais de 7,30! Eu bem te dizia que, há bocado íamos muito depressa!
Fizemos umas continhas: se mantivéssemos assim, chegaríamos dentro das 5h, o que não era nada mau. O importante era ir resistindo à tentação de nos pormos a passo, dizia eu.
Só o facto de estar a pôr essa hipótese, já era indicador de que poderia claudicar. Na altura, o Adelino tinha-se juntado a mim e ao Jorge e eu fiquei impressionado com a sua prestação, pois as várias vezes que ele se tinha aproximado e deixado ficar para trás, fazia-me pensar que estaria a desgastar-se em demasia. Mas não! Grande Adelino, ele aí estava para as curvas, quando já passava dos 35km.
De repente, “trau”! um impulso qualquer descontrolado, pôs-me a passo! Ui… doía-me tudo: as ancas, os joelhos, os tornozelos… Não conseguia andar. E, nestas coisas, andar a passo pode compensar, desde que se consiga andar rápido. Como era possível? Se a correr, embora lento, ia bem, sem qualquer tipo de dor, como é que a marcha me era tão desagradável? Arrependi-me de me ter posto a passo, mas não encontrava ânimo para recomeçar a correr. Vêm depois umas náuseas. Atentos, aparecem logo elementos da organização, em moto-4, perguntando-me se era preciso alguma coisa, se estava tudo bem. -Não, obrigado. Já passa! –disse eu! –Então dê cá o lixo, escusa de ir carregado! – Nem tinha reparado que andava com duas garrafas vazias nas mãos.
Vou à mochila buscar uma peça de fruta e depois outra e vou andando e comendo. Vários são os atletas que passam por mim: José Martins, Luís Parro e outros. Passa também o António Almeida : -“Vamos embora, Fernando !Neste passinho assim …curto, acha que não consegue!? “-Ainda não, António! Siga,siga, que eu, já recomeço!”
Não sabia quantas eram as curvas que faltavam para avistar a Meta, mas sabia que faltariam, talvez, 3Km. Deixa cá experimentar a correr novamente: Em cerca de 50 metros, encontrei o ritmo e parecia-me que ia bem. Pensei logo que devia ter recomeçado há mais tempo, mas pronto. Recupero algumas posições entretanto perdidas, volto a passar pelo António e, lá longe, avisto o pórtico amarelo da Meta. O objectivo estava à vista! Agora nada me faria parar. O ânimo regressa e acho, até que aumentei o andamento, chegando ao final com 5,24!
O prémio, os Parabéns, a descompressão naquela tenda “abençoada” onde tabuleiros com melão, melancia, uva, faziam as delícias daquela gente que “tão mal tinha tratado o corpo” naquelas últimas horas. Misteriosamente, a glória de chegar, mesmo que ainda doridos pelo esforço, sublima-nos para uma dimensão diferente. Quanto mais difícil o caminho, mais saborosa é a vitória.
Cá por mim, já vão cinco! E só quando não puder mesmo é que não estarei lá.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

UMA Corrida "Infinitamente" longa e... linda




O "bigode" deu-mo ele (J.Adelino)


O que me aguardava neste dia 26 de Julho, obrigava a que madrugasse, mesmo que tivesse dormido pouco e a véspera fosse um dia stressante.
Assim estava agendado, assim tive que cumprir a agenda.
Às 6 estava em Setúbal para apanhar o primeiro ferry, que nos levaria ao autocarro que estava à nossa espera para nos levar (e largar) em Melides.
Diga-se que não sobrou muito tempo, desde o momento da chegada do autocarro e o da partida dos atletas, mesmo tendo-se registado um atraso de 15 minutos.
Como tinha comido as minhas papas de nestum às 4,30, aproveitei para tomar um cafezinho e comer um bolo, numa das roulottes que se encontram perto do parque de estacionamento da Praia de Melides.
Encaminhámo-nos para o secretariado para levantar os dorsais e onde nos deram uma garrafa de água, uma barras de cereais, uns cubos de marmelada e uma peça de fruta, para levarmos. Dei por mim, faltavam 10 minutos! tranquilizou-me o aviso de que o tiro da partida seria adiado por 15 minutos. Apliquei protector solar nas zonas que achava mais propícias ao escaldão, o que foi feito um bocado às cegas, conforme testemunham as marcas que hoje tenho atrás dos joelhos.
Da minha equipa, a ACB, apenas a Rute estava presente e com ela troquei umas breves palavras de circunstância.
E foi assim, à pressa que, enchi o depósito da mochila, carreguei-a com as trapalhadas do costume (que podem fazer, mas que não fazem falta!) e pus também uma bolsa para levar a máquina fotográfica e o telelé.
Feito o brieffing habitual , fomos pela passadeira de madeira, para o areal onde estava definida a zona de partida. Encontrei aí o Corredor das Palavras e o Pára que não Pára, que já se admiravam de não me terem visto ainda. Podia lá ser?! A Susana e a Isabel tiraram-nos umas fotos para registar o momento e um repórter ficou surpreendido (e sem saber como dar continuidade à entrevista) com a resposta que o João Hébil lhe deu, quando lhe perguntou se estava preparado. Tinha-lhe dito que não! Alguém deu o tiro de partida e pusemo-nos calcar areia. Inconformado, o repórter, foi atrás do João, para lhe arrancar mais algumas palavras. Ainda nos rimos à conta disso.
Algo se passava com a minha mochila, pois eu sentia as costas todas molhadas. Como não tinha tido tempo de ter feito a verificação do equipamento, pensei logo que me tinha esquecido de ligar o tubo ao depósito, ou ter deixado a tampa por enroscar. Mas não liguei, até porque o fresquinho nas costas e nas “cruzes” me ia a saber bem.
Havia que ser cauteloso no ritmo da passada e na escolha do piso. Já se sabia que os primeiros quilómetros eram muito maus. Até onde foi possível, ainda seguimos pelos trilhos das moto-4 da Organização, pois ali, a areia já tinha sido calcada, cedendo menos à passada. Quando o João me vem com a conversa de que se pisarmos as pegadas dos outros, era melhor, respondi-lhe que isso obrigava a um ritmo diferente do nosso. - Que se lixe o nosso ritmo – diz-me ele- a gente adapta-se ! Resolvi experimentar. De facto, achei que a progressão era melhor, mas tinha um grande inconveniente: obrigava-nos a estar concentrados no sítio onde íamos pôr os pés e perdíamos, assim, uma das componentes mais atractivas da prova que é a paisagem. Bom, mas como isto seria coisa para poucos quilómetros…
No ano passado, havia um pescador que, por esta altura, exibia uma mensagem de estímulo escrita numa placa de madeira (“Já o fiz ! Só vos digo: Heróis”). Este ano, lá estava, presumo que fosse o mesmo, com uma placa dizendo :”Esta é só para os duros”. Mesmo sendo mentira, estas coisas fazem-nos sentir fortes.
Um trio de muitos Km (eu, O Jorge e o João)

Continuando, mais cedo que o esperado, deu para escolhermos uma rota mais perto da água, com a areia mais compacta. Passámos a 1ª bandeira (5,5Km) com 42,30, mais ou menos no mesmo tempo que na edição anterior, mas sentia que o tinha feito com mais facilidade. Na verdade, a maré estava bastante baixa e o mar calmo, pelo que a água não tinha tendência para “invadir” as rotas seguidas pelos atletas, a menos que se fosse muito distraído, o que, diga-se, era fácil acontecer . Dali para a frente, o piso iria ser cada vez melhor, permitindo correr a uma velocidade igual à de chão firme e regular. Assim houvesse pernas.
Passámos pelo Jorge Pereira, que dizia mal da vida por ter vindo pela areia seca até ali, sentindo-se desgastado, desnecessariamente, até se ter apercebido que estava a ser ultrapassado por todos. Viemos com ele até onde foi possível. Olhei para trás e vi que o Pára “não parava mesmo” e estava ali, a vinte ou trinta metros, juntando-se a nós por algum tempo.
.../...