segunda-feira, 20 de julho de 2015

UMA 2015

Com amigos, antes da partida (foto André Noronha)
Na partida (foto Duarte Andrade)

Aos 32Km (foto Nelson Mota)



A chegada (fotos Correr Lisboa)


O que é que esta UMA tem?
Tem …muita areia para percorrer, muito sol a dar nas costas, muita areia para correr, muito sol a dar nas costas…
Mas tem o fascínio que não há noutras provas!  
                                         
Fui de carro para Melides, de boleia com o meu amigo João Casquilho e com o meu filho Duarte. Chegámos pouco depois das 8. Rapidamente e ainda no parque de estacionamento, equipei-me, pus o protector em abundância, o cinto com dois boiões de água e uma bolsa para colocar umas coisitas para a viagem. Chapéu na cabeça e lá vou, passadiço abaixo, para levantar o dorsal. Ao lado da lista dos inscritos, e para assinalar que estávamos presentes, colocámos um tripé com o cartaz da 39ª Meia Maratona de S. João das Lampas.
A primeira surpresa que tive foi saber da redução, para mais de metade, do número de inscritos na edição de 2014 em que, dadas as condições do piso, desistiram muitos atletas ( e , talvez, tenham ficado desmotivados).  Outra das razões prende-se, certamente, com a sobreposição de outras provas ultra, como é o caso das Caldas e de Sintra. Outra ainda é a realização de uma prova curta nos 15Km finais do percurso da UMA. Penso que o desejo da quantidade de atletas não deve ser conseguido à conta da redução de atletas na prova principal. Se a própria organização diz ao atleta : -“veja lá, se não está disposto a fazer a prova grande, propomos-lhe outra mais suave, menos esforçada…” , está a retirar o próprio sustento à UMA e a toda a mística que lhe está associada. Mas adiante.
Umas fotos com amigos, cumprimentos aos muitos que encontrei , ouvimos, atentos, uma breve apresentação da prova e estava a ficar na hora de nos encaminharmos para a partida, que foi dada às 9 em ponto.
 O Sol já escaldava, em Melides e a coisa prometia a quem se tivesse esquecido de dar uso ao protector solar, principalmente nas zonas do corpo expostas à retaguarda  e à direita, por onde o “impiedoso” iria atacar-nos.
Toca a sirene e lá vamos, “amassando” aquela areia que se afundava a cada passada. Aqui, tenho de reconhecer que a experiência tida das edições anteriores contou bastante. Seriam, talvez uns 10Km naquelas condições e seria suicida tentar lutar contra a areia mole. E, embora visse alguns a escolherem o piso plano, de areia seca , fui decidido para junto da água, onde, apesar de tudo, era onde a areia estava menos má. Procurava pisar as pegadas dos atletas precedentes, onde a areia já estava calcada e afundaria menos. Mas isto era incerto e, ainda antes dos 5 Km, começava a sentir dores nos quadris e pensei que o melhor seria pôr-me a passo um bocadinho, antes que aquilo me causasse mal estar e impaciência. Se fizesse isto há uns anos, nunca interpretaria essa opção como estratégica, mas como um sinal claro de incapacidade de atingir o objectivo. Volto a corricar: passos curtos,  o menos esforçados possível, convicto de que tudo seria uma questão de paciência e saber esperar pela melhoria do piso, onde poderia aplicar as energias poupadas naquele calvário inicial.
Como não levava mp3, mp4 ou qualquer coisa com música, ia eu mesmo a cantarolar cá para dentro, muito ao género daqueles dias em que nos levantamos com uma cantiga na cabeça e ela nunca mais nos larga, mesmo que procuremos “mudar a agulha”. Pois bem, a música que me calhou na rifa foi aquela do Miguel Araújo “Toda a gente sabe que os homens são feios…”. Até mais de meio da Prova, o meu universo musical, ficou-se por aqui. Não vou prometer que não voltarei a ouvir a cantiga, mas por uns tempos fiquei tratado.
Passam por mim a Marta Andrade e o Daniel, cada um com o seu pequeno moinho a girar, numa alegoria perfeita de que,  afinal todos nos sentíamos a lutar contra moinhos de vento.
Conforme previa, o piso começa a melhorar, mas seria ainda muito cedo para me sentir seguro a correr. Vamos com calma e caminhar mais um bocadinho. A água que levava, parecia caldo, para além de ganhar o desagradável sabor do plástico, mas era a que tinha. Tomo um gel e bebo uns goles, pois devia estar na hora do almoço. (Claro que não sabia quanto tempo de prova levava-pois não levo relógio- nem quis perguntar). Dou duas ou três trincas numa sandes de presunto, mas achei melhor ficar por aí, antes que o estômago começasse às voltas. Estendo os olhos para o longe e avista-se o desenho do areal que contorna o mar, descrevendo uma curva para a esquerda, na direcção da Serra da Arrábida. Notava o areal sim, mas nele apenas via os atletas que iam à minha frente. Nada mais quebrava a continuidade daquela linha branco amarelado. E pensei : “mas ali deveria ser a Praia do Carvalhal, aos 28!?” Vou-me aproximando e vejo então umas “formigas” lá, nessa tal curva! E o que foi preciso correr para que essas “formigas” pudessem ser identificadas como pessoas! “-Daqui a 20 minutos devo lá estar”!  Não sei quanto tempo terei demorado, mas terá sido 3 ou 4 vezes o palpite que dei!
Controlo dos 28Km (Carvalhal) : somos obrigados  a sair da linha da água e subir ao tapete do controlo electrónico e receber, então, as duas únicas garrafas de 0,5 litros que a Organização fornecia. Sentado, como que na esplanada, lá estava o Tigre, descontraidamente, a recuperar as energias. O Heitor Gomes chegou também logo atrás de mim e prosseguiu. Com a água fresquinha, enchi os boiões e deixei as embalagens no saco do lixo ( desagrada muito continuarmos a ver embalagens de gel jogadas pelo areal!) . Tinha os pés cheios de areia e achei melhor ir à água para a tirar. A água até estava límpida, mas desta vez, não me puxou para o mergulho. Andei ali a fazer equilíbrio, ao pé-cochinho, tentando calçar as peúgas de novo, mas sem sucesso, até que o Tigre sugere que me sentasse na água e me calçasse à vontade e sempre refrescava. Assim fiz ( é bom haver alguém que pense, eheh) e fomos, depois, os dois, na palheta, a passo. Um pouco à frente, e vendo que vínhamos a andar, o João Casquilho e o Duarte, que estavam à espera que passasse, resolveram brincar, desenhando na areia, um corredor especial para a “caminhada” eheh. Meio “envergonhados” pusemo-nos a correr. Lá vem a Marta, novamente, com o seu moinho em punho, triste por ter deixado o Daniel  mais para trás, e que não se sentia bem. O Tigre, que estava com mais pujança que eu, foi com ela e cedo desapareceram de vista.  Pouco depois, passa também o Daniel que, afinal, me parecia ir bem.
“-Bom…vou andar mais um bocadinho, que o que eu disse é que vinha FAZER a UMA e não que a ia CORRER! “– disse cá para comigo. Mas procurei usar uma marcha ritmada, para não me deixar cair num relaxe exagerado.  Olha a Carla Lemos da Silva! Corremos juntos um bocadinho e voltámos a caminhar. Passa a dupla Paulo Mota e Jorge Pereira, que nos lança o desafio:  “-toca a correr, agora a andar!! Todo roto ando eu e vou a correr” -dizia o Jorge. Bem, lá teria que ser. Acompanhámo-los 100 ou 200 metros e…foi a vez deles porem-se a passo, enquanto que nós fomos correndo até onde desse. Parecia-me que a Carla ia melhor que eu, pois impunha uma passada mais forte e lá nos fomos aproximando da última curva, após a qual deveríamos avistar o pórtico. Lá estava ele, o gajo: era amarelo, mas pequeniiiiino.  Sem que eu me tivesse apercebido, a Carla baixou o andamento e eu já só me preocupava em ver o tamanho do pórtico “aumentar”: olhava para o chão, procurava distrair-me um bocadinho, levantava a cabeça e o raio do pórtico estava na mesma. E foi assim até lá chegar. Os últimos 50 metros de areia seca e ...lá está o arco da glória, com um cronómetro na base a indicar 6h10m. Uns aplausos sempre saborosos, de quem nos aguardava e feliz por me sentir em boas condições (nem náuseas tive, como tantas vezes me acontece). Medalha ao pescoço, um saco da Câmara de Grândola, uma cola fresquinha e a gostosa melancia.
O caricato vem a seguir: Então não é que vejo o José Gaspar, que conheço das suas vitórias no Trilho e na Meia das Lampas, vou cumprimentá-lo e ele, amavelmente perguntou-me como é que tinha corrido a prova. Contei-lhe e ele diz-me que o importante, de facto, é chegar em boas condições. Deu-me os parabéns por isso e que eu, obviamente, agradeci.
Caíu-me tudo ao chão, foi quando vim a saber que ele tinha ganhado a Prova, com 2,58 (ainda eu vinha lá para o Pinheiro da Cruz, talvez)! Quer-se dizer: ele deu-me os parabéns por eu ter feito 6,10 e eu…fiquei caladinho pelas brilhantes 2h58 que ele fez. Desculpa lá Zé Gaspar, mas os merecidíssimos parabéns, só tos posso dar agora.  Mas acho que me fica mal a cara-de-pau de fanfarrão, a receber parabéns do grande vencedor  e não ter, ao menos retribuído. Figuras tristes de quem se sente ” insuflado” e se esquece que há quem seja grande, MESMO.

E vão ONZE. 

11 comentários:

Elisabete Ribeiro disse...

Em primeiro lugar muitos parabéns pela prova. A UMA não é para qualquer um. Biso os parabéns pelo excelente texto, pois dá a sensação que até nem é tão difícil assim. ( :D).
Quanto ao não parabenizar o vencedor naquele momento são efeitos do cansaço. O importante é que foram dados, pois o blog também serve para isso mesmo.
Boa recuperação e boas férias, se for o caso.
Beijinhos

Fernando Andrade. disse...

Olá Elisabete
Muito obrigado pelo seu amável comentário e pela visita que acaba de fazer a este blogue que tem estado adormecido. Mas a UMA, que à 1ª vista parece um desafio titânico, acaba por estar ao alcance de um lingrinhas como eu. Basta ter paciência e levar a coisa na desportiva. Quem vai para competir, aí a conversa já é outra. Beijinhos e, mais uma vez, obrigado.

Alexandre Duarte disse...

Que inveja Fernando. Só quando não temos as coisas é que nos fazem falta! Impedido de participar, tentei acompanhar os amigos que sei participaram e obviamente tu serias sempre um deles. Gostei do relato, claro e do "corricando". Lendo as tuas palavras regressam à minha memória as 3 edições da UMA que terminei, porque houve 1 que não terminei. O espírito com que se encara uma prova com as características da UMA, são de facto meio caminho para o sucesso ou insucesso. Tu tens esse espírito e por isso "corricando", andando ou mesmo passeando terminaste mais uma para o teu invejável currículo. Parabéns. Abraço

Fernando Andrade. disse...

Muito obrigado Amigo Alex, pelo apoio que me deste e pelas tuas palavras. De facto, fazer a UMA é mais uma questão de paciência que outra coisa qualquer. E, claro, dosear o esforço em função da preparação que se tem. A minha era quase nula,logo, só poderia encarar a prova como um longo passeio. No ano passado foram quase 8h (7,57) e cheguei muito mais esgotado que desta vez. O melhor mesmo é à menor dificuldade, não hesitar em marchar um bocadinho. A gente vai descobrindo as coisas, eheh. Abração.

Anónimo disse...

Mestre
parabéns por mais UMA, estou como o Alex, que inveja mestre...
Quem sabe um dia voltarei a percorrer essas areias que nos encantam.
Se não for antes até à "especial", a tal em tempos dita de "rampas".
Abraço mestre.
António

Fernando Andrade. disse...

Olá, António. Obrigado pelo comentário. Fiquei admirado de não te ter visto por lá. Mas para ano há mais.
Cá te espero para a Meia das Lampas. Grande abraço.

JoaoLima disse...

Muitos parabéns, grande totalista!!!

Eh eh, essa do Zé Gaspar teve a sua graça. Mas ao mesmo tempo demonstra a humildade dos campeões.

Quanto ao número de participantes, não sei se o facto de existir a curta retirará tantos assim. Até porque as duas provas somadas ainda ficam bastante longe dos números de 2012 e 2013.
Na minha opinião, a proliferação das provas, tornando o calendário muito sobrecarregado, é que está a dispersar os atletas.
Digamos que estamos a assistir a uma crise de crescimento onde depois a teoria de Darwin se encarregará de colocar a ordem.

Um grande abraço e, se não for antes, até às Lampas!

Carlos Cardoso disse...

Muitos parabéns Fernando Andrade por mais uma UMA concluída com sucesso, e por este belo relato que demonstra bem o espirito com que encara esta coisa das corridas ... bem, essa história final teve a sua piada :) ... assim a ler a sua prova até parece fácil.
Abraço

Horticasa hoticasa disse...

Parabéns por mais UMA, é sempre um prazer ler os seus relatos...
Quanto a saber quem ganha? Nos vimos lá traz, como podemos saber quem chegou à frente?
Beijinho e continue sempre, eugénia

Fernando Andrade. disse...

Olá João Lima
Muito obrigado pelo teu comentário. Claro que concordo contigo quanto à redução dos atletas em função da proliferação de provas.Gostei de teres invocado o Darwin. A natureza encarregar-se-á de fazer a selecção. Abraço.

Viva, Carlos Cardoso
muito obrigado pelas simpáticas palavras. De facto, a UMA, não sendo fácil, pode ser feita com facilidade. Tudo depende da forma como a pretendemos encarar.Abraço.

Olá Eugénia
Muito obrigado pelo seu comentário. Beijinho.

Fernando Andrade. disse...

Olá João Lima
Muito obrigado pelo teu comentário. Claro que concordo contigo quanto à redução dos atletas em função da proliferação de provas.Gostei de teres invocado o Darwin. A natureza encarregar-se-á de fazer a selecção. Abraço.

Viva, Carlos Cardoso
muito obrigado pelas simpáticas palavras. De facto, a UMA, não sendo fácil, pode ser feita com facilidade. Tudo depende da forma como a pretendemos encarar.Abraço.

Olá Eugénia
Muito obrigado pelo seu comentário. Beijinho.