segunda-feira, 15 de agosto de 2011

III TNLO (UTNLO)

Juro que era água que tinha na garrafa! eheh (com o Pedro Amorim)
Foto de Paula Fonseca
A inscrição tinha sido feita a tempo e horas, pois esta era uma prova que, desde a primeira experiência, só uma razão muito forte, me impediria de voltar. Gosto de Óbidos, gosto da Prova, gosto da Organização, gosto que tudo isso seja a envolvência de mais um encontro com muita gente amiga. E depois, à conta de tanto “gosto”, alambazei-me ao UTNLO, quando o “simples” TNLO já me daria “água pela barba”. Mas eu tinha aquilo em mente e continuei fiel ao princípio segundo o qual “quando, no mesmo local, há uma prova grande e uma curta eu vou para a grande.”


Cheguei cedo a Óbidos, tendo até “sacrificado” uma das etapas mais espectaculares da 73ª Volta a Portugal em Bicicleta (Subida à Torre) para me pôr ao caminho. Lá chegado vou até ao Jogo da Bola, (local da partida – simbólica - e chegada – real ) onde iriam ser entregues os dorsais e onde fiquei à conversa com a malta amiga que ia chegando, até chegar a hora de ir comer qualquer coisa e “apetrechar-me” para este grande desafio nocturno.

Ora, o que é que eu pensei em levar? – Uma bolsa com uns géis, umas pedrinhas de sal, guardanapos de papel. Numa mão, levava uma garrafa de isotónico e na outra uma garrafa de água que fui bebendo no caminho entre o parque de estacionamento (cá em baixo) e o Jogo da Bola (lá em cima). Na cabeça, um chapéu. Ah… e o frontal! Bem… o frontal (que eu tinha comprado a um “marroquino” por 5€, até dava uma luz jeitosa, mas tinha-se partido uma “asa” que deveria segurar a fita que o prende à cabeça ! Com uns adesivos, dei-lhe umas voltas e pareceu-me que seria suficiente para o segurar mas, como via o pessoal todo equipadinho à maneira, com uns frontais minúsculos, mas com potentes lampiões, tive “vergonha” de exibir o meu, que tinha quase 10 cm de diâmetro e, ainda por cima, cheio de “curativos”. Pensei em pô-lo só quando caísse mesmo a noite.

Fotografia com os companheiros da equipa ACB (Carlos Fonseca, Lúcia Oliveira, Vitor Rafael e 2 novos colegas, Nelson Mota e Armando Pereira) e com outros amigos, uma “bacalhauzada” ao grande Carlos Sá e estava na hora.

Partida simbólica. Toda a gente atrás do guia da Organização, atravessando a Vila de uma ponta a outra, ante o espanto e os aplausos dos muitos turistas que por ali estavam. Na porta principal da muralha, é então dada a partida. As minhas atenções estavam na colocação do frontal, pois tinha chegado o momento de o pôr. A fita não estava ajustada e eu, corricando, ia tentando pô-la à medida. Esforço inglório, e a solução foi levá-lo na mão que estava livre.

Agora, era pensar na corrida e ir desfrutando daquele cenário maravilhoso de um “caminho luminoso” desenhado pelos 400 corredores (uns para os 47 e outros tantos para os 25 Km), caminho esse que, rapidamente deixou de ser “contínuo” para passar a “tracejado” , depois, “ponteado” …

Sabia que tinha de ir com calma e fiquei levemente assustado quando, no 1º ou 2º Km passei pelo grande guru das longas distâncias, Luis Pires, do Porto Runners, que me parecia ir demasiado lento e eu…”cheio da força”. Um sobe e desce violento, faz uma primeira selecção, obrigando a que o pessoal passasse um a um por estreito carril. Formam-se depois pequenos grupos que se vão afastando, mas em que se nota a tendência para que ninguém ficasse sozinho. Segui num grupo com 9 ou 10 até contornar a Lagoa . Uma subida na vertical, em que podíamos ser auxiliados por lianas que pendiam das árvores, reagrupou muita gente e levou-nos ao 1º abastecimento, que foi rápido. Segui e juntei-me a um novo grupo em que seguiam atletas do Milénium, contornando assim, a Lagoa pelo lado poente. Às tantas, na separação dos 25 e dos 47, fiquei sem saber se estes companheiros foram para frente ou ficaram para trás e vejo-me a correr com uma atleta de equipamento avermelhado, experiente em provas de aventura e mantivemo-nos no mesmo ritmo durante vários Km até ao final da tenebrosa subida da duna. Depois viria o trilho por entre a vegetação, com as raízes a pregarem rasteiras e a exigirem uma atenção especial. Aí, o pessoal seguia mais lento, mas a jovem passou para a frente e desapareceu. Depois vinha a parte mais difícil que incluía descer à praia, subir dunas fósseis, atravessar riachos… Consegui manter-me num grupo que só veio a desfazer-se no 3º abastecimento. Entre o 3º e o 4º abastecimento, foi o período mais crítico que atravessei. Fiquei sozinho, precisamente no meio do bosque. As dificuldades aumentavam. Mesmo em terreno plano, dava por mim a caminhar, o que era mau sinal. Nova subida, que ia cruzar com a estrada alcatroada. Muito atrás de mim, vejo aproximar-se gente. Pensei em tomar um gel, que até me soube bem. Mas por pouco tempo. Fiquei nauseado e tive de parar esboçando uns vómitos. Nessa altura, passaram 2 por mim. Não é que me pudessem fazer alguma coisa, mas uma palavrinha que fosse, serviria de conforto, mas estranhei que não me tivessem dito nada, o que contraria o grande espírito de entreajuda que tinha testemunhado na subida das arribas. Mas isso não é para aqui chamado.

O caminhante em que me transformei, ia procurando um passo o mais rápido possível. Vem mais um grupo. Era o Luis Pires, o Pedro Amorim, o Tiago Dionísio e outros que não conhecia. Puxaram por mim:-“vá lá, Fernando. Vamos devagarinho até ao abastecimento que é já ali.”

Doía-me as pernas e com muita dificuldade lá esbocei uns passos de corrida até reabastecer.

Fui rápido. Eles ficaram e eu, como sabia que eles viriam logo a seguir, arranquei a passo para os últimos 8Km. Com o Luis não fui capaz de ir, mas um pouco atrás vinha o Pedro Amorim, que me convenceu :-“Vá lá Fernando, recomeças a correr devagarinho, que as dores vão desaparecendo e, a pouco e pouco, voltas a entrar na corrida!” Hesitei, mas a insistência dele fez-me tentar. Na verdade, passados uns 200 m já me sentia outro. Curiosamente sentia-me com força nas pernas, como se estivesse num “2º fôlego” que consegui aguentar até escalar aquela escadaria do Castelo que nos levava à “Porta do Triunfo”, onde estava o nosso amigo Orlando Duarte a dar as boas vindas, após 6h de prova. O Pedro esperou por mim para uma chegada conjunta, que ficou registada na foto da Paula Fonseca. Um grande abraço ao Pedro Amorim, pois sem o seu fortíssimo incentivo e companhia, só chegaria à Meta lá para o nascer do sol.

Depois, lá estava a lauta mesa com tudo o que era bom, mas que o meu fragilizado estômago não conseguia aceitar. Já sabia que tinha de cumprir “o meu ritual”. Para o efeito, lá estava a mesma árvore do ano passado, para meu encosto, durante o “exercício náusico”. Depois de aliviado, já me apetecia provar aquela canja quentinha. Estava divinal e repeti. Depois sentei-me no murete e descomprimi, enquanto ia vendo alguns companheiros chegarem. “Descomprimi, descomprimi…” e depois “resolvi” deitar-me. E outro “espectáculo” se seguiu em que me vi rodeado de gente amiga, que muito me “apaparicou” e a quem fico muito grato pelos cuidados que tiveram comigo. Para quem não percebeu (estava a evitar dizer, mas como sou um língua de trapo…) tive um pequeno chilique, que não se revelou preocupante. Mas já sei que vêm aí os conselhos . “-Tu vê lá… já não tens 20 anos…com essas coisas não se brinca…!”

OK, prometo que vou ter cuidado. Mas este UTNLO deu-me uma enorme satisfação e, claro está, deixa-me uma incontrolável vontade de repetir. Para a excelente Organização encabeçada pelo Jorge Serrazina, Luis Nunes e António Miranda ( o “triunvirato” bem referido pelo Orlando Duarte) volto a expressar os meus sinceros parabéns por tão cuidado trabalho que constituiu mais um extraordinário êxito desportivo que a histórica Vila de Óbidos bem merece. Bem Hajam.

10 comentários:

Jorge Branco disse...

Grande aventura! Grande prova! Grande relato! Até parece que estava “lá dentro”!
Mas cuidado com os cheliques!
Quem sabe se para o ano me meto nisso nem que seja na “meia dose” mas primeiro tenho de sobreviver nas Lampas (não é simples!)!
Um super abraço.

Mário Lima disse...

Fernando

Relativamente ao conteúdo da garrafa tenho cá as minhas dúvidas. É que o grau de inclinação corporal da tua parte e o amparo feito pelo Pedro Amorim, dá ideia que outros vapores exalam da dita que não H2O.

:))

Uma prova onde frontal, ferido na 'guerra', não quis colaborar e lá está mais uma das razões para termos duas mãos, a natureza sabe bem o que faz.

Como ainda não cheguei ao teu nível pensante, numa prova onde haja uma grande e uma curta eu fujo para a... curta! Não é qualquer um que aguenta uma prova deste calibre e os ingredientes dela estão bem explicados nesta tua prosa.

É necessário também uma grande dose de espírito de sacrifício e aquelas dunas devem ser terríveis de se fazer. O desgaste deve ter sido imenso e aquele chilique final é prova disso.

Mas o que não nos mata torna-nos mais forte e é nesse sentido que já apontas para o ano seguinte, voltares a fazer a UTNLO.

É de ULTRA!

Abraços!

JoaoLima disse...

É sempre um prazer ler os relatos do grande Cidadão de Corrida.

Como diz o Jorge, até sentimos que estivemos lá dentro!

Agora sobre o conteúdo da garrafa... vendo a fotografia, ninguém me convence... :)

Um abraço amigo

BritoRunner disse...

Parabéns Fernando, um relato magnífico.
Quanto à organização, concordo que realmente é de nível superior e mesmo não gostando muito de areia para o ano devo de voltar para mais uma ultra.

Ricardo Hoffmann disse...

É F.A, pela sua cara na foto, é difícil acreditar que o líquido seja água mesmo. Mas lendo o seu relato, eu acredito. Parabéns por mais uma prova! Abraços do Brasil

luis mota disse...

Parabéns Fernando. TNLO é uma excelente prova, não estive, mas se tiver companhia ainda lá vou fazer os 47KM.
Grande abraço e até à Meia de SJL.

José Xavier disse...

Olá Fernando;

Que pena este ano eu não estive lá. Não foi possível nos encontrar-mos nesta prova maravilhosa, que boas recordações me deixou o ano passado.

A tua prova foi dura mas para um experiente como tu, com mais xelique ou menos xelique, tudo passa a ser canja...
Seria melhor menos xelique, porque o esforço daquela prova é muito grande..e cada ano que passa estamos mais velhos não é?!!, e precisamos de outros ritmos na corrida.

Continua em boa recuperação. Isso com umas canjinhas vai ao lugar. E agora que venha a MMSJL, e que tenhas sucesso na organização. Força!!

Um abraço dos
Xavier's

Fernando Andrade. disse...

Caro Jorge

O traçado do TNLO, mesmo sendo meia dose (e eu não conheço a parte deste depois da separação)
já tem que se lhe diga, mas eu, com a mania que tenho... estoirado por estoirado, ao menos fico com a satisfação de ter levado pela medida grande, eheheh.

Oh Mário

Essa do espírito de sacrifício, como diz o Hélio, é coisa "que não me assiste"! Ao menor sinal de desconforto, ponho-me a caminhar à espera de melhores momentos, Mas é chato levar as duas mãos ocupadas. Precisei delas para apoio em certos sítios e tinha que prender as coisas nos elásticos dos calções. Mas tudo se passou.

Obrigado João

a garrafa, inicialmente tinha powerade, depois, nos abastecimentos fui enchendo de água e cheguei ao fim ainda com uma pinguinha.

Amigo Brito
Obrigado pelas palavras. A tua prova foi excelente, ou não fosses tu um experimentado homem dos trilhos. Parabéns.

Amigo Ricardo
é sempre um prazer vê-lo por aqui.
Sublinho que estava satisfeito por ter chegado. O que pode fazer a confusão são os "adereços", eheh.

Grande Luis
às vezes surgem outras propostas mais tentadoras, mas este UTNLO estve em grande nível. Espero ter-te cá em SJL este ano.

Amigo Xavier

É verdade que a idade começa a fazer-nos optar por outros ritmos, mas acho que a falta de preparação ainda pesa mais. Fiz a corrida sempre confortável. Quando deixou de o ser, passei a caminhar. Levava mais tempo mas era a solução e a forma de me sentir mais seguro. Penso que se tivesse continuado a mexer-me após a prova, nada teria a contecido. Ms o que me apetecia era mesmo relaxar...
Então e essa preparação para a Maratona? Tenho estado atento e sei que isso vai de vento em popa. Força aí.

A todos agradeço as palavras que me deixaram e para todos vai um grande abraço.
Fernando Andrade

Vitor Veloso disse...

Grande Andrade,
Este UTNLO foi uma prova espectacular, ao ler o teu relato revi-me duplamente nesta grande odisseia.
Provas-te mais um vez de seres um grande ultra maratonista, os meus parabéns.
Para próxima edição lá estarei ao teu lado!!
Grande abraço
VV

Fernando Andrade. disse...

Obrigado Vitor.
Mas tu é que fizeste uma grande prova.
Não tenhamos dúvidas que esta é uma Prova daquelas que ficam bem no corrículum de qualquer corredor. Tenho um certo orgulho nisso.
Abraço.