terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Carta Aberta a Carlos Lopes


Caro Carlos Lopes

Ouvi dizer (aqui) que tu, o melhor atleta português de sempre, o percursor da vontade de experimentar a Corrida para todos – e eu fui dos que alinhei logo - vieste a terreiro dizer que o “running” está a ser mau para o Atletismo! Se fosse o implicar com a palavra “running”, tirava-te o chapéu. Mas não. Vieste dizer que isso é “bonito por ser bom para os médicos e fisioterapeutas e que é bonito para os organizadores que se enchem à conta dos que pagam para correr.”
Com todo o respeito que me mereces e continuando a considerar-te no mais alto patamar do Desporto Nacional, acho que, talvez querendo dizer outra coisa, não estiveste bem no que disseste.
Um Ídolo não deve rir-se dos que o idolatram nem deve rir-se dos organizadores que promovem as reuniões onde uns e outros podem partilhar, na estrada, nos trilhos, onde quer que seja, o gosto comum pela prática da Corrida. Nem amesquinhá-los.
Não te fica bem. Não tens que ridicularizar os que te seguiram os passos, ainda que mais devagar. Não são os “runners” (já que estamos nesta) que se põem em bicos de pés reclamando um estatuto de atleta. Haverá necessidade de desvalorizar essa condição ?
No teu tempo, todos sabemos, esforçavas-te estoicamente, treinavas no duro para conseguires ser um dos melhores do mundo. Conseguiste e tiveste um País a teus pés. Os “runners” só querem sentir-se bem, serem felizes correndo livremente, sem pressões. Não têm que se esforçar para serem os melhores do mundo. E também têm consciência de que aquilo que fazem em termos de performances desportivas vale zero.
Talvez aches que seria melhor termos uma população sedentária a aplaudir meia dúzia de grandes atletas ao invés de não termos grandes atletas mas termos uma população activa que em vez de se limitar a assistir aos feitos dos outros, vive, ela própria, o Desporto tornando-o parte da sua vida.
E quanto aos organizadores? Não te esqueças que também o foste – ou alguém por ti - e, pelos vistos, não achaste “bonito”, pois não fizeste futuro com isso. Aliás, entraste em acção nesse domínio, interferindo e levando ao cancelamento da 2ª Maratona de Abril em Lisboa, recordas-te (?) para comemorar os 25 anos da Maratona Olímpica, num percurso entre Cascais e Lisboa. Essa prova, apesar dos prémios apetecíveis acabou por não ter grande adesão. E esses prémios eram também para “runners”, pois eu que acabei com a modestíssima marca de 3,33 nem me passava pela cabeça vir a ser contemplado, por ser o 1º do meu escalão. Era um prémio de 400€ que eu sei que não merecia e, talvez por isso, nunca mo foi entregue. (Mas isso é só uma “picadinha” que te estou a dar e que não vem ao caso).
Como bem te recordas, andaste pelas escolas a falar da Corrida e das suas virtudes aos miúdos e tenho a certeza que não lhes andaste a dizer que correr era bom, mas que se não viessem a ser campeões o melhor seria parar porque se não a Corrida só seria “bonita” para os organizadores e para os médicos que encheriam os bolsos à custa dos pagantes corredores”.
A outra questão que colocas é a da separação dos “runners” dos “atletas a sério”. Concordo, em teoria, mas agora faz lá isso na prática. Crias uma espécie de 1ª Divisão à qual acedem quem tem determinadas marcas e uma 2ª para quem as não tem? Crias uma maratona onde só participa quem tem menos 2,30 e paras uma cidade para teres 20 atletas a correr? Depois, perguntas aos organizadores a qual das divisões se deve destinar o evento que organizam.
Talvez defendas que em vez dos “runners” estarem tutelados pela FPA deveriam estar tutelados por uma hipotética FPR. Olha que até nem é má ideia, mas não te esqueças que a FPA não acharia graça nenhuma.
Caro Carlos Lopes, para terminar, eu, que vibrei com as tuas conquistas, te admirei com a simplicidade que demonstravas, que te coloquei no altar dos ídolos, não gostei do que disseste. Não te esqueças que o teu sucesso foi um dos primeiros responsáveis por se ter criado o gosto pela Corrida. Mas olha que demorou muitos anos até que as pessoas achassem que, mesmo sem serem tão bons como tu, valia a pena correr. E isso não é bom? Que mal é que isso tem? Os bons dão qualidade à Corrida; os “runners” dão-lhe substância e sustentação. A Corrida é dos poucos desportos em que os virtuosos e os menos dotados podem comungar o mesmo evento. Pelos vistos, por enquanto.
Quanto à tua Escola de Atletismo, desejo que saiam dela muitos campeões.

Um Abraço.

14 comentários:

Nuno Cabeça disse...

Olá Fernando,
Não ouvi a entrevista, mas nada do que o Fernando aqui descreve me surpreende.
Há pessoas que não sabem ser exemplo, que não sabem ser heróis... e o Carlos Lopes sempre se sentiu lá em cima, falta-lhe a humildade... e a prova que a "fundação" organizou e que refere no seu texto foi um bom exemplo do não entendimento do fenómeno da corrida de massas.
Vai-lhe fazer imensa confusão que daqui a 4 anos a Maratona Olimpica de Paris seja aberta aos tais "runners"
Abraço,

Fernando Andrade. disse...

Obrigado pelo comentário, Nuno. De facto, este tipo de pensamento por parte dos grandes vultos do nosso atletismo, deixa muito a desejar. Lamentável. Grande abraço.

Jorge Branco disse...

Muita mas muita coisa podia ser escrita aqui mas lembrei-me desta:há muitos anos houve um prova aberta a todos, ou seja onde os"coxos" podiam correr (coxos era como os senhores da Federação Portuguesa de Atletismo denominavam os atletas de populares) que se chamava,salvo o erro, Estoril, Cascais, Sintra. O primeiro prémio dessa prova era um televisor a cores prêmio muito apetecível pois as emissões a cores tinham começado à pouco tempo e os aparelhos eram caros. O Carlos Lopes foi lá para levar a TV para casa... Nessa altura deu-lhe jeito as PROVAS ABERTAS A TODOS, OU SEJA AS PROVAS POPULARES, OU SEJA AS PROVAS DOS "COXOS"!

Albísio disse...

Lamento por si meu bom amigo Fernando, pelo ser integro que é, já quanto ao campeão que penso todos admirámos pelos seus feitos e conquistas com a verde rubra, não lamento pois nunca o idolatrei, gosto de manter a reserva. Um abraço amigo e continue o que é.

Al.

klentos running team disse...

Fiquei triste com o comentário do Campioníssimo Lopes mas prefiro pensar que a pretendia explicar que existe pouca qualidade nos atletas de hoje em dia que não "sofrem" como os de há 30 anos em vez de "atacar" os atletas populares.
Essa constatação também tem a ver com a vida actualmente, mais fácil, mais "tech", mais sedentária. Em suma, expressou-se mal, penso eu.
Há uns anos iniciei, por amor ao desporto e à alegria que que descobri nas corridas de rua, um site onde qualquer atleta pode ter o seu historial de resultados de competição online a partir de qualquer lugar ou equipamento.
Na altura, fui incentivado por elementos da FPA incluíndo atletas que viram nessa uma forma de todos, lentos ou rápidos, gordos ou magros, velhos ou novos, sentirem-se também um pouco atletas motivando-se a treinar com mais qualidade para subirem no "ranking" então criado.
Felizmente muita gente aderiu com marcas modestas mas outros também com marcas relevantes.
Este é o meu humilde contibuto para a comunidade do atletismo popular.
Um abraço,
Jorge

klentos running team disse...

Esqueci-me de os convidar para nos visitar em www.allinrace.com :)

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

5 estrelas esta carta aberta Fernando! 5 estrelas mesmo! Mentalmente triste esta passada pelo Carlos Lopes...e não é único infelizmente. Mas felizmente muitos mais apoiam a Corrida para todos, mesmo sabendo que há quem ganhe dinheiro com isso, mesmo sabendo que haverá lesões e alguém a ganhar dinheiro com isso também...até parece que em Alta Competição isso não acontece...enfim...
Beijinhos

Ricardo Baptista disse...

Fernando,
Concordo bastante com quase tudo o que dizes, mas permite-me discordar de o Carlos Lopes ter sido o melhor atleta português de sempre. Creio que há outros que foram melhores, mas não vou aqui expressar, porque esse não é o assunto e poderia ser igualmente subjetivo nos pressupostos de avaliação.
É claro que o Carlos Lopes continua a ser para mim aquele atleta que nos brindou com a primeira medalha de ouro nos JO. Continua a ser aquele atleta que esteve exposto durante alguns anos num poster no meu quarto, exibindo umas sapatilhas nike nas mãos com os braços ao alto em sinal de vitória (a nike é desde esse tempo uma marca querida, não a uso mais vezes porque não tenho v€locidade para €las...). Continua a ser aquela lenda. Este não o reconheço daí, este é o mesmo que me fez prepara uma maratona, gastar dinheiro (mais do que a inscrição, vivia nos Açores, foram as viagens, o hotel, os dias de férias marcados…), e nem uma desculpa da parte dele.
Além disso, erra bastante no diagnóstico do que está a ser péssimo para o atletismo de competição, entenda-se: o atletismo que pode levar atletas aos jogos olímpicos e que sejam candidatos a medalhas. E o que está a ser péssimo para o atletismo não são os corredores lentos, não é o exagero de provas, não são os poucos que ganham dinheiro com este negócio. O principal inimigo do atletismo de competição são a imediatidade dos efémeros posts nas redes sociais.
Grande abraço,

PS: Vê lá se não começas agora a escrever que somos runners… ou que fazemos jogging…

Abraham Chevrolet disse...

As provas são sempre patrocinadas pot varias entidades e firmas, com hranfe estardalhaço publicitário.
E de seguida os participantes pagam a sua inscrição, não tão pequena como isso. Façam as contas r vejam a mina que imã prova pode ser. Patrocinam o quê? A garrafa de àgua que oferecem ?

joaquim adelino disse...

É uma tristeza uma das nossas referências enquanto atleta ter este tipo de apreciação sobre a corrida e os seus participantes, é gente de naris empinado e lamento dizê-lo sem princípios, joga no logro, ou pelo menos dá-lhe cobertura, não esquecerei os 30€ que paguei numa maratona que foi cancelada que tinha o seu nome e até aos dias hoje o dinheiro não me foi devolvido, como eu estão algumas dezenas, ou mesmo centenas de atletas a arder! Gente que que faz isto, ou permite que utilizam o seu nome para o fazer não merece que o idolatrem pelos feitos alcançados, pelo menos enquanto indivíduo, já que o atleta é apenas isso será sempre merecedor do respeito de todos nós!
Grande Fernando, exemplar pela forma como está gente de bico empinado deve ser tratada, abraço!

eduardo almeida disse...

Ouvindo bem o que Carlos Lopes diz, estou plenamente de acordo com o que afirma.É verdade que haverá gente mencionada nesta entrevista que não gostará, mas as suas afirmações não estão longe da verdade

José Gaspar Rodríguez de Francia disse...

Eu desculpo-o, trata-se de um problema cultural, mas é evidente que o Carlos Lopes não tem razão nenhuma no que disse.

João Pedro disse...

Eu até entendo por um lado a questão dos fisioterapeutas e organizadores de provas... Praticar atletismo e neste caso corrida não é só correr para a frente, existem muitos outros factores que devem ser tomados em consideração... Peso, modo como põe o pé no chão, corrida em asfalto... Etc

Com as organizações das provas temos de ser justos e muitas delas não têm grandes condições... E pelo preço que se paga ficam muito á quem das expetativas...

Boas corridas,❤️❤️

Pear Boy disse...

Foi uma declaração infeliz do Carlos Lopes. Concordo com o que escreves! O mais importante é pôr a população a praticar desporto e a sair de casa.
Claro que havendo mais pessoas a correr, faz nascer outros negócios. Porém, as pessoas também filtram as provas onde querem ir.