terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

28ª Maratona de Sevilha


Se eu juntasse tudo o que já escrevi sobre as minhas várias participações (13) nesta maratona, daria um enorme relambório, que muito poucos teriam paciência para ler. Além disso, muito do conteúdo soaria a repetido, não por vontade, mas porque a cidade é a mesma, a distância a percorrer, também, o encantamento, idem idem.


Numa altura em que se vai assistindo aos efeitos da mão pesada da troika, este ano, Sevilha, quanto a mim, deu alguns sinais de resistência. Sacrificou a contratação de atletas de elite, capazes de tempos invejáveis, mas não descuidou um tratamento de “proximidade” com os atletas de pelotão. Aumentou a participação, com um novo record de atletas chegados (4349) com a particularidade de não se terem classificado todos os que excederam o tempo oficial de 5h. Aqui, a meu ver, a organização não esteve bem, apesar de tal medida vir contemplada no regulamento, mas também em anos anteriores vinha e não se aplicou com o mesmo rigor. É que foram ainda muitos, aqueles que completaram a prova para além do tempo limite e que, apesar da medalha ao peito, não figuram na classificação. Outra coisa que acho ter sido desnecessária, foi o atraso da hora da partida das 9 para as 9,30! Em meu entender, isso só serviu para complicar a hora do almoço, mas talvez haja alguma vantagem que não consigo vislumbrar. Voto no regresso às 9h.

Mas, adiante. A entrega dos dorsais e do kit do corredor esteve bastante bem orientada, conseguindo-se resolver em poucos minutos, ao contrário do que acontecia dantes. A taxa de inscrição (21€) continua a ser uma das mais baixas que por aí se praticam, e, diga-se, que esta Prova tem tudo para justificar uma taxa equivalente a muitas que oferecem menos condições. Mas ainda bem que assim é.

Continuarei, enquanto puder, a marcar presença nesta Maratona em que, cada vez mais portugueses participam, sendo inclusive aquela que é escolhida para a estreia de muitos na distância. Está de parabéns a Organização.

Quanto à minha Prova, foi feita dentro das minhas expectativas. Sabia que não tinha treinado bem, que tinha estado constipado na semana que a antecedeu, por isso, não poderia apontar para grande marca. Entre 3,45 e 3,50 já me deixava satisfeito. Mas, como sempre, a grande avaliação seria feita à passagem da Meia.

Estava um dia limpo, sem vento, mas um bocadinho fresco. Entregue o saco da roupa, lá fomos para o aquecimento (pouco, pois teríamos tempo de aquecer ao longo da prova). Estava, na altura, com o Pedro Burguette e o Valter Cunha, meus amigos e colegas da ACB, que esteve representada por nós mais o Carlos Fonseca. Parecia que estávamos em Portugal, tantos eram os atletas portugueses com que nos íamos cruzando.

Dado o tiro da partida, a enorme avalanche humana , bem compacta, é “vomitada” pelo túnel sul do estádio, onde se ouvia o arrepiante som das vozes dos atletas a marcar o ritmo das passadas no chão. Um efeito bonito e moralizador para a empreitada que estava a iniciar-se.

Por volta dos 4Km encontro o Luis Parro e o Paulo Pires, com quem andei alguns kms, num passo confortável, mas que me “assustou” quando soube que o balão das 3,30 ainda vinha atrás de nós. O Paulo dizia que era o balão que estava mal e isso, de certa forma, tranquilizou-me. Mas ainda no Parque de Alamillo, uma árvore “chamou” por mim e disse ao Paulo para seguir que já o apanhava. É o apanhas…! O balão das 3,30 é que, entretanto, me apanhou e eu nem sequer tentei vir com ele e assisti, sem preocupação, ao seu afastamento lá para a frente. Por volta dos 12Km deixei de o ver.

Levava comigo 3 geis. Muitas vezes tenho chegado com eles ao final sem lhes tocar, por receio que me caiam mal no estômago. Mas também acontecia que só tomava o primeiro gel após os 23 /24 Km. Desta vez pensei em tomar o 1º entre os 10 e os 15, mesmo antes de sentir qualquer decréscimo nas forças, pois assim, iria adaptando o estômago. Também achei melhor não tomá-lo todo de uma vez, mas aos poucos, durante 1 ou 2 km. Gostei da forma como reagi. Passei à Meia com 1,48 e não me pareceu ir muito mal embora esse tempo fosse demasiado rápido. Ah… só aí soube a que ritmo ia, pois não levava relógio. Vi que não poderia aguentar-me por muito mais tempo. Havia que reduzir ligeiramente, por vontade própria, para não ter de reduzir por já não poder.

Por volta dos 27Km passa o Pedro Amorim e pouco depois a Graça Roldão. Eu continuei num ritmo mais “maneirinho” a tentar preparar-me para aquela enorme recta dos 30Km, que acabei por passar bem. Em dificuldade vinha o José Neto (que estava constipado) e veio mais devagar. Agora era ir gerindo a coisa para chegar bem ao fim. Ao contrário do que já me tem acontecido noutras vezes, nunca tive aquela vontade irresistível de me pôr a passo. Mantive-me em prova sempre e acho que os 2 últimos km foram mais rápidos. Entro no estádio e aquela meia volta já é de consagração. Avisto o relógio do pórtico, que estava quase a passar para as 3,45. Não valia a pena sprintar para que o 4 não fosse substituído pelo 5. Chego rodeado por vários corredores e sou creditado com o tempo de 3,45,16, sendo o meu tempo real de 3,44,36.

Com uma marca aquém da que desejaria mas bem melhor da que estava à espera nas actuais circunstâncias, sinto-me feliz por ter podido concluir mais uma edição desta excelente, fantástica e apelativa Maratona de Sevilha.

21 comentários:

Pedro Carvalho disse...

Excelente, Parabéns!
Ainda estou algo longe desse objectivo. Espero só agora estrear-me na Meia de Lisboa no próximo mês mas anseio pelo dia que me tornarei um Maratonista. ;)

Fernando Andrade. disse...

Obrigado, Pedro.
Vai ver que esse objectivo não esta assim tão longe.

Nuno Sentieiro Marques disse...

Fantástico relato...só te faltou recordares o encontro dos 4 "realizados" no final :).

Que grande performance...pensava eu que andavas em baixo de forma (à passagem da meia estivemos muiiiittttoooo perto um do outro, mas quebrei na segunda metade).

Relativamente aos Teus apontamentos, de acordo com tudo, gostei muito (foi a minha primeira e espero poder voltar).

9:30 até ás 14:30 com mais 1 horita em cima e lá está, vamos parar à hora de almoço Espanhola :).

Grande Abraço

JoaoLima disse...

Sempre em forma, Fernando!
Para quem só sonha em estrear-se numa Maratona (Dezembro em Lisboa), ver alguém que já passou a meia centena, é algo de
(espaço em branco pois não há palavras!)

Um grande abraço

Fernando Andrade. disse...

Obrigado, Nuno.

Calma que já lá vamos, pois os "realizados" na Andaluzia não podiam passar despercebidos.

Grande João. Obrigado.
Não cries muita ansiedade com a Maratona, pois isto só precisa de um bocado de paciência e autocontrolo. Vais ver que é canja.

Abraço

joaquim adelino disse...

Parabéns amigo Fernando, excelente até na marca que obtiveste, esta tua 13ª de Sevilha coincidiu com a minha 13ª Maratona, penso que ela nos deu sorte, para mim foi muito boa pois de há muito que não concluía u7,a Maratona sempre a correr.
Desjo-te uma boa recuperação. Abraço

luis mota disse...

Parabéns Fernando, pela prova e pela forma como descreve esta excelente Maratona.
Uma boa recuperação e até Badajoz.

Mário Lima disse...

Fernando

O que vale é que há sempre uma árvore ou uma duna pelo caminho!

:)))

Depois de 13 Maratonas sevilhanas e com tudo já conhecido, o fator mais importante é saber se o acabar tem alguma relação com outro acabar já feito. Mais minuto menos minuto e com a preparação qb lá a fizeste.

Como a contas uma maratona até parece fácil.

:)

Pena foi não terem tb classificado os que acabaram após as 5 horas de prova. É uma 'machadada' tremenda para quem a fez e o seu nome lá não conste. Quando se inicia uma prova destas sabemos como a começamos mas nunca como a acabamos e há que respeitar o esforço dispendido.

Espero que em Portugal nada disto se passe pois 5 horas é muito pouco tempo como limite!

Abraços!

Jorge Branco disse...

O amigo Fernando Andrade soma e segue! Magnifico como sempre!

Anónimo disse...

Parabéns, amigo Fernando.
Sempre a dar cartas. Espero no próximo ano não resistir a Sevilha. Já me deveria lá ter estreado.
Aquele abraço.

Meixedo

António Almeida disse...

Parabéns mais uma vez, mais que a marca admiro teres feito a maratona com a regularidade com que a fizeste sem levares relógio.
Mestre é mestre.
Abraço.

Fernando Andrade. disse...

Amigo Adelino
Obrigado pelas tuas palavras e retribuo as felicitações, pois também cumpriste a "empreitada" com sucesso. Oxalá possamos continuar a encontrar-nos nestas andanças por muito tempo.

Bravo Luis.
Obrigado, mas ainda estou meio embasbacado com a prova que fizeste. Afinal, qual é que é o teu limite? Parabéns, Luis.

Obrigado Mário.
Concordo com o que dizes a proósito das 5h. Acho que é desumano excluir-se atletas, num desrespeito total pelo esforço daqueles que não conseguem ir mais depressa. É verdade que estava no regulamento, mas não custava contar com eles. Aliás, até seria benéfico, em termos de ranking. Quem sabe se não será apenas uma classificação provisória. Se "choverem" e-mails, quem sabe se não irão reconsiderar!?

Obrigado Amigo Jorge.
Magnífico...quer dizer. Mas foi bom. Não me queixo.

Grande João.
Obrigado pelas palavras. Estou convencido que gostará da Maratona de Sevilha. Quando é que o Porto Runners orienta outro autocarro, como aconteceu há 2 anos? Vale a pena, amigo Meixedo, pois sei que é apreciador de provas com "colidade".

Grande abraço a todos.

Fernando Andrade. disse...

Olha o António!!!
Obrigado amigo. Mas olha que o relógio nºao faz falta nenhuma se pensarmos que aquele que temos a bater no peito, é mais fiável que qualquer outro.
Mas depois...também não foi tão certinho assim, pois na 2ªmeia demorei mais 9 minutos,que ma 1ª, eheh.
Tu é que estiveste muito bem, num recomeço de grande nível. Parabéns.
Abraço

José Xavier disse...

Olá Fernando;

Mais uma grande prova !!Isso de relógio é mais psicológico do que necessidade.

Eu fiz o meu record pessoal dos 10 km sem relógio, e senti-me muito bem. Mas também devo dizer que com relógio é confortante.....

Parabéns, porque mesmo constipado, continuas em bom ritmo.... Força!!

Um abraço amigo dos Xavier's

Bluewater68 disse...

Bom dia Fernando. Os meus parabéns por essa prova e pelo tempo conseguido, pois é preciso recordar que foi na sequência de uma semana onde não houve grande capacidade para treinar. Mas isso também vem provar uma vez mais que, desde que haja força de vontade, as limitações físicas ficam esquecidas.
Em relação à questão das 5h, é muito discutível. Será uma frustração para quem corre, mas também será um incentivo. Em 2011 na prova do Ironman em Kailua-Kona, Havai - a prova de sonho de todos os triatletas - Nancy Summers, uma americana de 50 anos, completou a prova em 17:00:04. Depois de 17h de enorme esforço, 4 segundos fizeram toda a diferença. Ela foi abraçada à chegada por Chrissie Wellington e Craig Alexander, os grandes vencedores dessa prova. Ela tirou a foto da praxe, mas … 4 segundos impediram-na de ouvir “YOU ARE A IRONMAN!” e de receber a desejada medalha. E ela não caiu lá de pára-quedas. Para lá estar, ela teve de ganhar um lugar numa das competições intermédias e pagar uns 500$ só pela inscrição. E no fim, por 4 segundos, ela não levou a medalha. Mesmo assim, ela diz que quer lá voltar.
Abraço

Carlos Lopes disse...

Olá Fernado

Os meus parabéns campeão.

Fernando Andrade. disse...

Obrigado Xavier.
Não me queixo do resultado obtido, pois o treino não merecia mais. Terminei bem e isso foi o bastante para ficar satisfeito.
Grande Abraço.

Obrigado Bluewater68.
Quanto ao tema das 5h,compreende-se que, embora a Organização seja soberana, é dramático que, por 4 segundos, se seja excluído do lote de heróis. Penso que a "onda solidária" que se cria em torno de alguém que seja vítima desta regra, não deixa de penalizar o excesso de zelo da Organização. "Dura lex sed lex", mas esta regra não é feita por quem, no terreno, deixa lá tudo o que tem para conseguir o estatuto de finisher. Heverá, concerteza, soluções intermédias que garantam, pelo menos, reconhecer que a pessoa lá esteve e que terminou, mesmo para além do tempo limite. A sensibilidade humana para reconhecer o esforço de quem se aplica, deve estar acima da frieza de uma regra que, na secretaria, prucura "apagar" tamanho esforço.
Mas, como disse, é a Organização que tem a faca e o queijo na mão. Tem toda a legitimidade para agir conforme lhe aprouver.
Abraço.

Obrigado Carlos Lopes, mas "campeão" só se for de "maraturismo".
Abraço.


FA

Carlos Lopes disse...

campeão, somos todos nós.. mais para quem correr a tantos anos como o Fernando, a palavra " campeão", é sempre bem aplicada, porque os que vencem provas, não apenas vencedores.... Campeão, é quem vive com a sua alma o Atletismo

Fernando Andrade. disse...

Assim está bem, Carlos.(Eu tinha percebdo, mas estava a entrar contigo).
Obrigado pelas tuas palavras, amigo.
FA

PauloL disse...

caro fernando,
está feita e é quanto basta. gostei de o conhecer pessoalmente e da agradavél conversa que tivemos na noite antes da prova.
um abraço e até breve.
paulo lapão

http://kmepalavras.com

Fernando Andrade. disse...

Olá Paulo.
Obrigado pelas palavras e parabéns pelo excelente resultado de Sevilha.
Bem vindo ao cidadão e já fiquei freguês do kmepalavras.
Abraço.