segunda-feira, 2 de agosto de 2010

UMA 2010

Talvez pudesse pensar-se que quem vai, pelo sexto ano consecutivo ao Melides-Tróia, apenas encare essa participação com naturalidade, em que nada de novo possa descobrir. Mas não é assim. Pelo menos comigo. É certo que não senti o “ nervoso miudinho” de estreante, mas o respeitinho pela jornada estava presente e tinha a certeza de que cada edição nos proporciona uma Prova diferente em que o factor surpresa, é uma constante. Seja boa ou seja má.
Cumprida a rotina habitual do transporte, chegámos a Melides cerca de uma hora antes da partida.
O tempo estava encoberto, conforme se desejava, mas a Praia de Melides, após as obras de requalificação, apresentava-se cheia de “glamour”, com modernas passadeiras em madeira entre a área de estacionamento e o pórtico da partida, no areal .
Para que tudo se processasse com calma, levantámos o dorsal e havia que começar a equipar : colocar protector solar principalmente nas zonas mais expostas (pois embora o céu estivesse encoberto, a qualquer altura o sol poderia “aparecer” e apanhar-nos desprevenidos), preparar o conteúdo da mochila (agora é que é certo : NUNCA MAIS LEVO MOCHILA!),ir à casa de banho (agora já não há necessidade de ir atrás das dunas); tomar um cafezinho, tirar umas fotos com a malta da minha equipa, a ACB, que se apresentava com seis (!) atletas à partida, e outras com malta dos blogues , ouvir as recomendações da Organização (infelizmente ainda há quem não cumpra e continue a deitar fora, as garrafas de água e as embalagens de gel ) e pronto…só faltava encaminharmo-nos para o local da partida, desta vez decorada condignamente com um pórtico insuflável e baias laterais.
Carlos Lopes, mais uma vez, o padrinho da Prova (ladeado pelo Sr. Presidente da Câmara, Vice-Presidente e Vereador do Desporto da Câmara de Grândola) deu o tiro da partida.
Os 214 atletas inscritos (novo record de participantes) iniciam a prova, em diferentes direcções, como sempre acontece: uns preferem a areia seca por ser plana, outros preferem a molhada por ser mais compacta, outros ainda (eu, por exemplo), vão correndo sem se decidirem por qual hão-de optar.
Dizia-me o João Hébil : - “Afinal não estou a perceber a tua estratégia! Vamos por cima ou vamos por baixo?”
Ainda eu estava a “apalpar” o terreno, mas decidi-me a ir por baixo. “- Por aí é muito arriscado!” –dizia-me ele.
Claro que o risco era apenas o de ficar com os pés molhados logo no início da prova. Não convenci o João a vir comigo e, claro, rapidamente fui “atingido” por uma onda que se espalhava pela areia sem se “incomodar” com quem se atravessava no seu caminho.
Havia quem fizesse uma trajectória em zigue-zague , mas eu optei por fazê-lo o mais rectilíneo possível. Mesmo junto à água a areia afundava-se, pois o mar não tinha vazado o suficiente, mas achei que, apesar disso, seria menos desgastante correr ali que na areia seca.
Bandeirinha dos 5,5Km : 39,30 ! Bem bom, pois a parte teoricamente mais difícil, estava quase feita.
O João começou a afastar-se e eu a ver-me obrigado a refrear o ritmo.
Depois vem o desconforto intestinal a obrigar-me a subir e sair da trajectória dos atletas, para aliviar. O “esconderijo” era bastante amplo e permitia-me ver as cabeças dos atletas que iam passando junto à água. Retomo o andamento. Lá vinha o meu amigo e colega da ACB, Francisco Pereira. –“ Vamos embora, Francisco!” – procuro incentivá-lo, mas eu também começava a não estar muito bem. O peso da mochila começava a incomodar-me. Pensei que, se não me libertasse da carga, dali a pouco poderia vir a ter problemas de dores nas sacro-ilíacas (nas “cruzes”! para não estarmos cá com “paneleirices”) . “-O melhor é mesmo começar a beber água , nem que seja só para bochechar e sempre seria menos um kilo e meio. Vai um cubinho de marmelada para acompanhar. Gostei e ganhei algum ânimo. Mas a areia… essa continuava a não querer colaborar e já estavam decorridos mais de 15km.
Entretanto, também já tinha os sapatos cheios de areia e pensei em fazer uma paragem para dar algum conforto aos pés. Tiro os ténis e passo-os por água. Fiquei só com as peúgas. Lembrei-me que no ano passado, vinha equipado com um plástico que estenderia na areia, para fazer essa operação, mas este ano, facilitei e não o trouxe. Com os ténis um em cada mão, pus-me a correr e achei que os pés estavam melhor sem eles. Mas não dava jeito correr com as mãos assim ocupadas. Vejo o Nuno Espírito Santo, também ACB, junto a uma moto-quatro, “em conversações” com a Organização. Mau- pensei! Ainda lhe disse qualquer coisa, mas ele – vim a saber- estava decidido a parar mas não podia abandonar ali e teve de ir até ao próximo posto de controlo. Uma baixa importante nas “aspirações” da equipa.
O que eu queria mesmo era chegar aos 28,5km e alijar a mochila e os ténis, que a organização me devolveria no final. Por volta dos 27, com o Carvalhal à vista, mas “lá looonge!!!” tenho uma enorme quebra e tive de me pôr a passo. Registo, com agrado os incentivos que recebi no percurso( não me lembro é onde), dos meus colegas de equipa, André Quarenta e Lúcia Oliveira) .
Passo o controlo dos 28,5! Finalmente. Tiro um gel da mochila, recebo as duas garrafinhas de água e peço para deixar a “carga” que tinha a mais. Ali mesmo, não resisti ao apelo das águas límpidas e calmas da Praia do Carvalhal e…vai um mergulhinho. Vestido e tudo! Tão bem que soube!
Uma garrafa de água em cada mão e um gel. Agora era só o que tinha. Sentia-me leve e, a pouco e pouco, vou ganhando um andamento que até a mim me surpreendia. Ganhei umas uvas fresquinhas que o Eduardo me deu (isto não se pode dizer porque é proibido!) mas que vieram mesmo a calhar.
Finalmente (por volta dos 34 km) a areia começou a ficar melhor, facilitando a corrida, e continuo a ganhar andamento. Alguém vinha em sentido contrário, correndo. Era o meu amigo Virgílio Madeira, da ACB, que vinha ao encontro da malta para incentivar nos últimos km. Fez-me companhia quase até Soltróia. Disse-me que ia num andamento forte (!) e isso estimulou-me, pois o piso agora estava bom e só faltavam 6km. Eis que aparece mais um ACB, o grande ultra Carlos Fonseca. Como eu ia bem, o Virgílio e o Carlos foram ao encontro do Francisco.
Vou ganhando posições e resolvo tomar o gel que trazia, para ver se não perdia ritmo. Aguentei-me bem. Passo pelo meu colega ACB, Carlos Souto e nem dei por isso (só no final é que ele me disse) alcanço o Pedro Amorim , o grande Ultra da Comrades e da Freita que, “influenciado” pelas Melíadas veio do Porto participar na UMA e terminámos juntos, esta Edição de 2010.
5.51.09.

Como não quero chatear muito, volto depois para contar mais coisas.

17 comentários:

Fábio Pio Dias disse...

Parabéns Fernando!

Apesar do nervoso "miudinho" que significa responsabilidade já está mais uma no "papo"!

Uma prova com grau de dificuldade extrema e só ao alcance dos corajosos e determinados!

Depois desta odisseia o desejo de um bom e merecido descanso.

Um abraço!

elis disse...

olá,fernando!

parabéns por ter concluído esse belo desafio!

a mochila que você carregava era dessas de hidratação?

você correu do km 28 ao final sem os tênis? e o que achou? melhor com os tênis ou sem eles?

adorei seu relato! e estou esperando "as mais coisas" que você ficou de contar;)

mais uma vez, parabéns!

Luis Parro disse...

Grande prova Fernando. Para o ano tem de ir ao banho mais vezes para eu e o Amigo Adelino o apanhar-mos!!!
Um abraço e Boa recuperação

Carlos Lopes disse...

Parabéns Fernando

Anónimo disse...

Renovo os meus parabéns por mais UMA.
Como disse ontem em Melides o Fernando é o grande responsável por me ter convertido às areias de Melides a Tróia, muito obrigado por isso.
Claro que escusado será dizer que o pensamento começa a estar focado numa prova na região dita saloia, não sei se está a ver qual...
Abraço companheiro.
António Almeida

José Xavier disse...

Caro Fernando;

A emocão de qualquer inicio de corrida é assim mesmo....e nesta o que custam são os primeiros 42 km...porque o resto até deve ser fácil não é?!

Até sábado em Óbidos....um abraço do Xavier

joaquim adelino disse...

Grande Fernando, afinal fiquei sem saber o que motivou reação tão positiva, saltar a duna, uvas frescas, sapatos na mão, mochila fora, mergulho; e reação tão positiva no final.
Eu levei uma daquelas fogachaças que ia desatinando, deu para chegar e para pensar.
Face ás dificuldades em quase todo o percurso parabens pela excelente prova.
Abraço

luis mota disse...

Olá Fernando!
Mais UMA e já lá vão 6.
Agora é recuperar até Óbidos.
Grande abraço,
Luís mota

Corrida Vertical disse...

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JH disse...

Mais uma vez não quisestes seguir os meus conselhos... foi um prazer voltar a correr a teu lado ainda que desta vez por pouco tempo. Na próxima vez faz favor de me prestar atenção...

abraço

Mário Lima disse...

Fernando

Acabada a prova e ao ver os resultados pergunto como é possível tão bons tempos em piso tão agreste. Conseguir correr naquelas areias era o Cabo das Tormentas e nem com a Nau Catrineta desbravava melhores caminhos.

As areias de baixo eram iguais às areias de cima, só que um bocadinho mais molhadas e ali iam toda a gente como se o vinho fosse água e a tormenta bonança.

O desfazer de certa carga (não será do café?), o alijar dos ténis e da mochila e com alma até Almeida, lá seguiste o teu destino. Esse era Tróia que fica para o próximo capítulo.

:)

Abraços.

Jorge Branco disse...

Pelo menos nesse WC não havia vespas nem abelha o que já não é nada mau!
E não foi atacado por um caranguejo nessa operação fisiológica o que quer dizer o que o seu mau-olhado acabou!
Mais uma grande UMA (que devem ter parecido duas)!
Parabéns!
Ando a tentar perder o pouco juízo que me resta para um dia me meter na UMA!.
Mas, por enquanto, ainda vou tendo alguma para ver que é areia demais para a minha camioneta!

MPaiva disse...

Fernando,

Muitos parabéns por mais um desafio superado, este ano com a "mais-valia" das dificuldades extra com que a natureza quis "brindar" dos bravos!

abraço
MPaiva

Fernando Andrade. disse...

Caro Fábio
Obrigado pelas felicitações.Não posso passar sem te dizer que esta Prova, uns anos mais fácil, outros mais difícil, tem um carisma tal que, quem a experimenta, passa a ser "outra pessoa". Se há alguns que não apreciam as características únicas que ela tem, haverá outros (a grande maioria) que ficam "clientes".
Nada como experimentar em 2011.

Olá Elis

A mochila que levava era de hidratação sim (com 1,5L de água), mas ia a incomodar-me o seu peso.Receei que, como me aconteceu em edições anteriores, o seu peso pudesse provocar-me dores lombares e tornar a corrida (ou a marcha) penosa. Haverá outras formas de hidratar sem ir tão carregado.
Corri sem os tenis cerca de 30km e foi boa a opção que tomei. Levei-os na mão talvez 20Km. Foi um grande alívio pôr-me a correr sem a carga. Melhorei muito o rendimento, apesar de decorridos 2/3 da prova. Acho que correr com peúgas é a melhor opção (há quem o fgaça completamente descalço, mas aí, é preciso preparar primeiro os pés para suportar o impacto na areia de 40 mil (!) passadas.

Amigo Parro
pode crer que aquela banhoca não me atrasou. Antes, revigorou-me e, a partir dali, foi só ganhar posições. É só ver a lista de tempos parciais (dorsal 136).Espectáculo.

Amigo Carlos
Obrigado pelos parabéns.
Agora, que está feito o teste, já sabes como deves alinhar em 2011 que, por muito mau que seja, não deve ser pior que este ano. O importante é não gastar a reserva antes de o piso ser adaptado à corrida. Já me aconteceu em anos anteriores, chegar a "terra firme" e ter de ir a passo. Isso é arrasador, em termos psicológicos, pois pensamos : "que parvo fui em querer contrariar o piso mole, correndo e agora que poderia correr já não tenho pernas."
Para o ano vai ser canja, Carlos.

Amigo António
Já ao disse, a prova que fez foi absolutamente fantástica. Fico feliz por ser o "responsável" pela sua "conversão" à UMA. Sem ser essa a minha intenção, acabei por me transformar num "evangelista" pregando o advento do domínio do Homem sobre o das areias.
Parabéns, António.

Caro Xavier
Esta prova também lhe encheria as medidas. Habituado que está a correr ao nível do mar, aqui, leva-se mesmo à letra essa condição. Tenho a certeza de que ficaria freguês.
Ver-nos-emos em Óbidos no próximo sábado.


Grande Adelino
Tenho pena de não ter trocado contigo algumas impressões no final, mas nem um nem outro estáva para grandes conversas,eheh.
Vi-te entrar na tenda, acenei-te, vi a tua "carinha" - a minha devia estar parecida, mas as pernas aconselharam-me a não sair da cadeira. Li o teu excelente relato e acompanhei as tuas emoções.
Esxtá bem que o piso era mau, mas não venhas dizer a ninguém que as neoprene são boas para aquilo. O Tigre também me veio com essa conversa e nem ele nem eu tiraram bons resultados disso. E agora tu!
Mas o importante é que superaste as dificuldades e acabaste com uma vitória que faz inveja a muita gente.
Segue-se Óbidos.

Grande Mota
Voaste. Por isso não sentiste o afundar dos pés na areia que, sendo fofa, se tornou duríssima.
Uma prova excelente e uma estreia absolutamente fantástica.
Parabéns, Luis.

Corrida Vertical
Já ouvi falar destas provas, sim.
Realiza-se em prédios urbanos de muitos andares, escada acima. Aqui onde moro, a cércea máxima é de 6,5m, hehehe, só dará, quando muito, para saltar à vara.

Fernando Andrade. disse...

João
Mais uma vez me "deste com a ripa". E acho que não foi por ter ignorado os teus conselhos. Gostei de ter ido pela linha da água. Acho que tu te afastaste não por correres em melhor piso (seco), mas por estares bem preparado.OK, não correste em areia durante os treinos, mas fizeste muitos kms e isso notou-se.
Parabéns.

Grande Mário
Brilhante estreia, precisamente num ano em que a tormenta se notou mais do que a bonança. Mas, duros como somos e tendo sempre presente que a dor é passageira e a glória é eterna, cumprimos, cada um conforme poude, os objectivos traçados. Aí está a conquista.
Parabéns pela estreia, Mário.

Amigo Jorge
Toda aquela extensão de areal foi declarada TLAV (território livre de abelhas e vespas), por isso é que me agachei em segurança. Só falta agora que o meu amigo venha até Melides na próxima, para fazer o possível. Sem stresses. Até onde der para retirar algum prazer da aventura, que, se for em Tróia, tanto melhor.

A todos, agradeço as palavras amáveis e envio um grande abraço.

FA

Grande Paiva. Obrigado pelas felicitações.
Com o espírito lutador que tens, esta Prova está feita à tua medida.
Vê se não deixas escapar 2011. A UMA passa a ser uma referência incontornável na vida desportiva de quem a experimenta.

A todos um Grande Abraço.
FA

Vitor Veloso disse...

Olá Fernando,
Parabéns por mais uma UMA terminada, já vão 6!
Pelo que ouço esta edição foi talvez a pior de todas, estou certo?
Boa recuperação,
Ate sábado em Óbidos.
Forte abraço

tutta disse...

Prova fantástica. Relato maravilhoso. Me senti na prova lendo este seu texto.
Parabéns caro amigo. Pela prova, pelo texto, por tudo.
Abraço e bons treinos e provas pra você.


tutta
www.correndocorridas.blogspot.com