terça-feira, 29 de julho de 2014

UMA 2014 (Duro,duro,duro)

ACB: FernandoCelestino,Pedro Burguette,Tam Afonso,Paulo Moradias,eu e o Arlindo Duarte)

Com o Paulo Neves











O tempo tem, na verdade, um impressionante poder sobre a mente. Se por acaso, como acontece com alguns, eu tivesse que escrever ontem, um relato desta 10ª Edição da UMA, teria escrito qualquer coisa completamente diferente daquilo que penso escrever de seguida em que as ideias que me surgem vêm já com um “acabamento” sublime, que lhe foi dado pelo decorrer de apenas um  dia. O que era rude, passou a ser suavizado; o que me parecia violento, passei a ver como uma provação; as culpas que atribuí ao piso, passei a dividi-las com a minha impreparação; aquele caminho de areia infinitamente longo é visto agora como um cenário belo que se recorda com nostalgia e que, afinal se venceu.
Mas é pelo princípio que devo começar.
A ida para Melides foi alterada, pois estava inscrito para ir no autocarro da organização, mas a disponibilização do meu filho para nos levar a Melides (a mim e ao Paulo Neves), permitiu-nos dormir mais um bocadinho. De qualquer forma às 8h estávamos lá.  Levantamento dos dorsais, cafezinho e há que preparar o equipamento de combate. Optei por levar pouca coisa: um cinto com duas garrafas de 0,5 de água e uma de 0,33 na mão: 2 géis e duas barras.
Algumas fotos com os meus amigos e companheiros da ACB (Paulo Moradias, Arlindo Duarte, Tam Afonso, Fernando Celestino e Pedro Burguette), o briefing  (fico espantado com o “português”  do computador! Escrevo “factor” dá erro; escrevo “briefing” está tudo bem!- mas isso são outras questões). Encaminhámo-nos para o local da partida e vi-me nauseado talvez por causa de uma bebida que estavam a oferecer (para hidratar) mas que não me caíu bem. Mas passou.
Tiro da partida: lá vamos nós. Partimos de trás.
A areia estava completamente solta, quer se fosse pela linha da água, em plano inclinado, quer se fosse pela areia seca , em plano horizontal.  Esta situação não surpreendia ninguém que já tivesse participado noutras edições, pois é sempre assim. O problema surgiria lá mais para a frente, pois o raio do piso não havia meios de melhorar. Lá ia gerindo, com passos curtos, sem fazer a extensão completa da perna, procurando economizar ao máximo as energias.
Cedo fiquei com os pés molhados e notava que a areia ia fazendo alguma pressão nos dedos dos pés. Já sabia que não podia esperar que incomodasse, pois quando isso acontecesse, a bolha estaria a formar-se. O melhor era parar e tirar a areia. Tinha passado os 10 Km. Acabei por levar os sapatos na mão e prosseguir só com as peúgas. Ia bem, embora com o desconforto de  levar os sapatos na mão, o que fiz até ao controlo seguinte, aos 14,5Km, onde os entreguei.
Até ao Carvalhal, tudo bem, conseguia ir mantendo um ritmo de corrida (ou coisa parecida), mas depois pensei: “-bem, vou caminhar um bocadinho por vontade própria, antes que tenha que caminhar por não poder correr”.  Pareceu-me sensata a ideia e assim caminhei uns 200m e corri mais um bocadinho para voltar a parar, Repeti  isto umas 3 vezes, quando notei que, afinal estava equivocado: estava a caminhar por vontade sim senhor, mas reparei que o que eu não tinha era vontade de correr. E a marcha, ou melhor, o calcar areia, tornou-se contínuo. Chega-se ao pé de mim o meu colega Paulo Moradias (que tinha estado a tirar a areia dos sapatos e que eu passei sem o ver) e fomos caminhando, invadidos pelo desânimo. Olhávamos para trás e não víamos ninguém a correr, mas sim a caminhar. De certa forma, consolava-nos que os outros estivessem a sentir o mesmo tipo de dificuldades que nós.
A Comporta avistava-se sim, mas estava tão longe!!! A nossa velocidade rondava os 17 minutos por Km(!!!), pelo que, uma vez chegados àquele controlo dos 28,5Km precisaríamos de 3 horas para completar a prova e mesmo assim, chegaríamos com o controlo encerrado. O Paulo estava fortemente tentado a abandonar. Ele tinha um caminhar mais ligeiro e afastava-se. Depois esperava, afastava-se, esperava…  E fomos assim até à Comporta, quando ele me pergunta: -“então qual é o resultado da reflexão?” Resposta :” – Continuar! Percebo que queiras ficar, mas tenho alguma esperança que a partir daqui o piso melhore e nos permita correr alguma coisa. Por outro lado, tenho uma motivação extra que é a de não defraudar a minha expectativa de concluir todas as 10 edições desta prova.” E lá decidimos continuar: O Paulo enche a mochila com as duas garrafas de água que lhe deram (ele bem tentou mas não lhe deram mais) e lá recomeçámos. Nesta altura passa a Carla André. Ainda a avistei por algum tempo, mas depois deixei de a ver. O Paulo também foi embora e só o vi no final. O piso, de facto, melhorou e já dava para correr. Com esforço, lá retomei a corrida. Já não me lembro em que altura, mas encontrei  o “Tigre”, mas foi pouco o tempo que fui com ele, pois escapou-se.
Até aos 34Km consegui correr, mas novamente me pus a passo. Olho para trás e quem vinha lá? O meu amigo Paulo Neves. Ganhámos algum ânimo e fomos juntos até ao final. 7h55m !!! Um novo record de tempo de prova.
Depois entrámos na tenda e aquela melancia saborosa e fresquinha  soube pela vida !!
E depois ainda, havia leitãozinho que o Arlindo Duarte nos tinha convidado para petiscarmos à chegada …(e que fomeca que tinha passado no caminho, pois onde é que já ia a hora do almoço…?)
E alguém se lembra daquela aventura editorial das Melíadas, motivada precisamente pelas sensações épicas (ou loucas), que esta prova nos transmite? Pois bem, ainda tive a satisfação de ser abordado por um amigo de um amigo, interessado em “captar” algumas dessas sensações de UMA Prova em que dizemos raios e coriscos quando a acabamos, mas que bastam umas horas para que, magicamente,  ela nos volte a piscar o olho . Irresistivelmente.

6 comentários:

Jorge Branco disse...

Mais uma UMA e que UMA! Grande relato, grande determinação e grande campeão!

JoaoLima disse...

Muitos parabéns Fernando pela 10ª em 10ª! E com que dificuldades!!!

Um grande abraço

Alexandre Duarte disse...

Não há dúvida que a força da mente numa prova destas é talvez mais importante que a força dos músculos.
Que orgulho terás sentido ao cortar aquela meta.
Parabéns!

Anónimo disse...

Parabéns Mestre pela tua 10ª, feito grande só ao alcance de poucos, essa é que é essa...
Obrigado também meu amigo e mestre pelos teus relatos, mestre é mestre também nas palavras.
Talvez para o ano volte a fazer o raide, para já certezas apenas que em setembro lá rumarei à região saloia para devorar umas tais de rampas.
Abraço grande.
António Almeida

Carlos Ferreira disse...

Caro Fernando,
Os meus PARABÉNS por mais uma prova e muito OBRIGADO pela sua tenacidade. Sempre que o leio ou vejo correr recebo a energia necessária para continuar a praticar esta actividade. O Fernando é sem dúvida um exemplo para todos nós. Um verdadeiro cidadão da Corrida.

Sílvio Horta disse...

Parabéns por mais UMA para o currículo!