segunda-feira, 3 de março de 2008

Salvo pela elipse

A Língua Portuguesa é “muito traiçoeira” e, às vezes, pensamos que escrevemos bem e, posteriormente, ficamos na dúvida se não teremos cometido erro.

Há dias escrevi um texto – o 2º deste blog - a que dei um título que pareceu padecer de falta de concordância e fiquei a pensar se teria cometido erro.

Aproveitando um “canal” para esclarecimento de dúvidas sobre o Campeonato de Língua Portuguesa, apresentei a questão da seguinte forma :


OláVenho solicitar-vos um esclarecimento que não tem, propriamente, a ver com os dois testes do Campeonato já efectuados, mas com uma dúvida que me surgiu.Escrevi um artigo para a comunicação social a que chamei : "Poderes que se sobrepõem ao das Leis". Na altura soou-me bem, mas, à posteriori, pareceu-me que errei, pois penso que deveria ter escrito "aos das Leis" (no plural).Será que haverá alguma possibilidade interpretativa (benevolente, claro) que possa aceitar como correcta a contracção "ao" no singular ? Ou a minha "argolada" é de palmatória ?Agradecendo o esclarecimento, subscrevo-me com a maior consideração.Fernando Andrade

Entendendo que não cometo nenhuma inconfidência, pois quanto mais abrangente for o esclarecimento, mais propósito haverá nele, aqui vai a resposta :


Caro Fernando Andrade
Embora, como refere, ela nada tenha a ver com os temas dos testes do Campeonato da Língua Portuguesa, aqui estamos a responder, gostosamente, à sua pergunta.
Intitulou um seu artigo de "Poderes que se sobrepõem ao das leis". Posteriormente pareceu-lhe que o título estaria errado e que deveria ter escrito "Poderes que se sobrepõem aos das leis", forma de cuja correcção ninguém duvida, mas que tem um conteúdo diferente. Enquanto que no 1.º caso considera que as leis têm um poder, no 2.º caso já admite que os poderes são vários; daí que as redacções sejam diferentes, conforme os casos: "Poderes que se sobrepõem ao (poder) das leis" e "Poderes que se sobrepõem aos (poderes) das leis".
Mas vamos ao que interessa, que é saber se aquela forma que utilizou, e sobre a qual tem sérias dúvidas, é defensável, mesmo que para tal haja que apelar a alguma "benevolência", para utilizar a sua expressão. Do nosso ponto de vista, não se trata de uma "argolada", muito menos "de palmatória". Basta invocar uma figura de estilo, a elipse, para considerarmos correcto o tal título. Na verdade, ao escrever "Poderes que se sobrepõem ao das leis" fica subentendido o substantivo "poder", vocábulo que se omitiu "ao abrigo" da referida figura de estilo, assim evitando a repetição da palavra «poderes», embora no singular. É, pois, inteiramente pacífico aquele título: "Poderes que se sobrepõem ao das leis", pois equivale a "Poderes que se sobrepõem ao poder das leis". É válida a supressão de uma palavra num enunciado quando essa mesma palavra pode ser subentendida no respectivo contexto. Um exemplo de elipse: "Há vários poderes, mas o judicial é o que actualmente mais nos preocupa". A elipse não prejudica minimamente o entendimento da frase.
Pensamos que estará dada a reposta solicitada.Com os nossos cumprimentos,
a Comissão Técnico-científica


… e esta hein!???

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