terça-feira, 1 de abril de 2008

A "agonia" do velho moinho



Fazia tempo, talvez seis meses, que o velho moinho não dava sinais de querer medir forças com o vento, no planalto de S. João das Lampas, o que me fez concluir que o Victor Hugo, o moleiro, deveria estar doente, pois ele, apesar de estar na casa dos oitenta, nunca deixava de ir pôr o moinho a trabalhar. Gostava e entendia bem daquela arte de fazer a farinha - e caprichava - pois sabia que era um dos últimos moleiros de um País rendido ao comodismo das energias fáceis. Só mesmo quando não podia é que não ia até ao moinho herdado do seu tio, Ti Toino Estêvão, que ainda conheci e vi trabalhar, nos meus tempos de criança. Passava horas a ajudá-lo e a conversar com ele, enquanto as minhas ovelhas pastavam nas imediações e ele ia limpando o trigo ou ensacando a farinha.

Todos os moinhos das redondezas – e eram muitos – pararam, pois, com a electrificação da zona, criaram-se as moagens, que lhes tomaram o lugar. O Victor Hugo sabia que, com a evolução, a sua subsistência não poderia ficar dependente do rendimento de moleiro (que, nos meios rurais, foi uma das profissões mais rentáveis - e nem sempre considerada das mais honestas: “muda de moleiro mas não mudas de ladrão”, dizia-se). Ainda chegou a utilizar uma “engenhoca” ligada ao tractor, que fazia girar as mós sem precisar do vento e sempre lhe rendia mais alguma coisa. Mas aquilo descaracterizava o moinho e ele entendeu voltar ao velho sistema.

Em boa hora o fez pois o Parque Natural Sintra-Cascais concedeu-lhe uma ajuda financeira para o fazer, reconhecendo o elevado interesse paisagístico do moinho. Pena foi que, passados uns anos e precisamente quando a ajuda se revestia de maior importância, tivesse resolvido cancelar essa mesma ajuda, continuando, no entanto, a considerar o moinho nos roteiros e esperando que o Victor Hugo, continuasse a aceitar visitas a e dar todas as explicações sobre o seu funcionamento. Sabia que não ganhava nada com isso, mas, por brio e por estar ciente de que era um dos últimos veículos de um conhecimento com os dias contados, continuou, com a mesma disposição e disponibilidade a aceitar inúmeras visitas de grupos de alunos das escolas ou de simples visitantes.

Fui encontrá-lo à porta do moinho, sentado na “tripeça”, cabisbaixo, desanimado. Com a saúde e com as partidas da vida. Mas bom conversador como é, deu para estar ali, algum tempo a ouvir as suas recordações boas e más. Tinha desfraldado as velas mas não tinha posto o moinho a trabalhar. Tinha estado internado e sentia-se fraco. A função implica muito mais habilidade do que força física, mas, mesmo pouca, sempre é preciso alguma e essa faltava-lhe. Disse-me, com mágoa, que não iria voltar a pôr o moinho a girar !

Muito resistiu ele e, por muito que nos custe, ninguém tem a obrigação de, por si só e sem qualquer contrapartida, manter viva a história da comunidade. E ele fê-lo ... até poder.

Obrigado, Victor Hugo !

3 comentários:

José Capela disse...

Caro Fernando Andrade,

O meu amigo tinha deixado um comentário no meu blog, no post da Meia-Maratona "Cego do Maio", o que desde já agradeço.

É caso para dizer que há males que vem por bem. Calma, eu explico!!!

Na verdade eu tinha dois comentários, exactamente iguais feitos pelo Fernando. Só queria publicar um, mas por lapso acabei por recusar os dois. Vai daí, comecei a pesquisar como poderia justificar-me perante tão ilustre companheiro de corrida. E assim descobri o seu blog, vamos lá ver se este comentário não se perde nas teias da internet!!! rsrsrsrsr

Ahhh.. para me penitenciar (será???) vou colocar um link no meu blog para dar acesso ao seu.

Cumprimentos

José Capela

Joaquim Margarido disse...

Quantos Vitor Hugos não haverão neste País onde grassa a ingratidão e onde todos se vão rendendo aos interesses do dinheiro, abdicando de verdadeiros valores?

O exemplo do velho moinho é paradigmático deste triste estado de coisas a que chegámos. São pequenas malhas da nossa cultura que vão caindo, transformando aos poucos a bela manta colorida num amarrotado pedaço de pano que parece apenas servir para que os grandes senhores d'aquém e d'além mundo limpem as suas lustrosas botas de cano.

"Não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos... E uma raiva a nascer-te nos dentes?"

JOAQUIM MARGARIDO

Fernando Andrade. disse...

Amigo Capela
Bem vindo ao meu "dossier" e obrigado pela visita a este "ilustre" eheheh espaço. Mas olhe que o meu comentário ao seu relato de Sevilha está lá, inteirinho. Se o tinha apagado, foi de algum sítio onde, de facto, não deveria estar.
Grande Abraço.

Para o Joaquim Margarido.
Até com um breve comentário ele faz um Texto. Não um simples texto.
Assim se enriquece sobremaneira uma mensagem. Obrigado, Amigo.