segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Raide Melides-Tróia 2008

Saio de casa às 4,30 da matina e, por via das dúvidas, tratei de tomar um pequeno almoço antecipado, constituído pelo leite e cereais, que é aquilo a que estou acostumado.
No carro já tinha colocado aquilo que, no meu entendimento, poderia vir a fazer falta.
Arranco, rumo a Setúbal, onde – sem necessitar de ultrapassar os limites de velocidade – cheguei às 5,45. O barco seria às 6,15. Curiosamente, já havia por ali raiders. Não precisamos de os conhecer para “tirá-los pela pinta”. Mas logo a seguir, começa a chegar um bem conhecido: o Zen, depois o Pina, depois o Antunes, o Vitor Silva, o Zé Martins, o Jorge Pereira, a Analice e, de repente, tudo nos era familiar. Fiquei com a sensação que aquele viajem de barco, seria exclusivamente para “mártires” que encontrariam a “glória paradisíaca” nas areias do lado de lá do rio.
No barco, o Antunes faz, em primeira mão, a apresentação de um protótipo de calçado adaptado às areias, a merecer a atenção de um fabricante (deu cabo de uns Nike “qualquer coisa” recortando a parte de frente e substituindo-a por uma fita de velcro. A água (e a areia) entrava, mas sairia da mesma forma, mantendo o pé sempre confortável. Vim a saber que a “costura” é que precisa ser reforçada, para que a fita não ande ali a dar-a-dar e, às tantas, obrigue... “ao mergulho” involuntário.
Enquanto ouvia as estórias do Jorge Pereira, sobre as caimbras e das aventuras na Geira, olho de relance e vejo o Zé Martins, sentado, de olhos fechados, costas muito direitas, em pose de yoga, certamente numa meditação que o ajudasse a enfrentar este desafio.
Ah, ainda tive o prazer de conhecer o Tiago Martins, que viria a revelar-se a grande revelação das areias.
Chegámos à outra banda: um cais novo que, a partir de 15 de Setembro –e por força dos interesses imobiliários em presença, passará a acolher a “plebe” libertando a zona nobre da península para os “donos do mundo”, substituindo o antigo.
2 Autocarros à nossa espera, e lá vamos nós para Melides.
Quando chegámos, já lá estavam bastantes amigos nossos (que dispunham de condutor para levar as viaturas para Tróia: O João Hébil e a sua “armada” da Atlas Kopco-Madrid (Ricardo, Eduardo e Roberto), o Fernando Alves e o Luis Oliveira, que preparam intensamente a sua participação no Madeira Island Ultras Trail; o Eduardo Santos, o Tigre , a Margarida e a Yolanda .
Um cafezinho e um queque, numa das roulotes que substituiram o antigo café e encaminho-me para o Secretariado, onde assinei o termo de responsabilidade, levantei o meu dorsal e me deram uma garrafa de água, uns cubos de marmelada e mais umas coisitas que levei, mas que ainda não sei o que eram.
Vou equipar-me . Passo um protector pela pele e vejo que, de tanta tralha que levei, não precisava de 80%! E o saco que entreguei à Organização para me ser devolvido em Tróia, pesava que se fartava.
A grande novidade no meu equipamento era no calçado . Resolvi utilizar umas meias de mergulho. Tinha feito alguns treinos com elas e sabia que entrava a água, mas não a areia. E a água tirava-se com facilidade e não magoava os pés. Receava apenas que a ausênc ia de protecção da planta do pé, me obrigasse a um esforço a que não estava devidamente adaptado. Apenas tinha feito treinos de uma hora com elas e esse, era o único senão que me retirava alguma confiança. Decidi na hora : ou fazia a experiência ou fazia como nos anos anteriores já sabendo que, volta e meia, tinha de descalçar os ténis para tirar a areia. Optei pela primeira.
Ouvimos umas palavrinhas da Drª Margarida Moreno, Directora da Prova e encaminhámo-nos para o local da partida.
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A Partida. Eu estou lá para trás...


Ouviu-se um “estalo” e puseram-se em marcha os 164 raiders, onde estavam incluídas 14 mulheres “que os têm no sítio” .
Prudentemente, parti atrás. Estava com o João Hébil, quando “tudo” começou.
Havia que encontrar a passada certa, pelo que os primeiros metros eram de experimentação. Logo a seguir, vemos que uns vão pela esquerda, pela “pista húmida”, outros seguem em frente, pela “pista superior” . Entendemos seguir cá por cima, evitando a forte inclinação.

“JÁ O FIZ ! SÓ VOS DIGO ISTO : HERÓIS!”

Era com esta frase, toscamente escrita a castanho numa velha placa de madeira prensada, que um pescador que ali estava, incentivava este grupo de aventureiros. “Herói” é forte de mais, mas que nos faz bem ao ego...!

Vi que não tinha pernas para acompanhar o João, que, entretanto, optou por descer. Ao ver que ele se distanciava, ainda pensei que fosse por ser mais fácil correr na areia molhada. Passado o primeiro quarto de hora de corrida, entendi correr junto à água.
As distâncias entre os atletas iam crescendo e as nossas “referências” passavam a ser a côr dos equipamentos : o laranja era o Zen, o branco e preto era o Vitor Silva (ambos teimavam em correr na “pista superior” e, pelos vistos, a darem-se bem) o amarelo era o João Hébil e o Eduardo Esteves (que tinha a bandeira espanhola na mochila), o verde era o Tigre. Vim “na peugada dele” !
Desta vez, sabia que não iria ser apanhado pela Analice, pois, “estrategicamente”, parti atrás dela e... nunca mais a vi.
A primeira bandeirinha, dos 5,5 km, só aos 44 minutos é que apareceu. A “coisa“ prometia !
Uma hora de corrida. Era tempo de tirar a água das “botas”: sento-me na areia, “alço a perninha” e, com as mãos alargo o “cano” de neoprene e, só pela gravidade, a água saía. Vinha quente. Pensei cá para comigo que, quando chegasse ao fim, teria os pés cozidos. Continuei em passo de corrida durante mais uma hora. Era um passo fraquinho com que me ultrapassavam facilmente.
À passagem da 2ª hora (teria feito pouco mais de 10 km) volto a tirar a água. Aí, como já tinha passado por alguns que vinham a passo, fui contagiado e pus-me também a andar, na esperança de que a vontade de correr voltasse depressa. A primeira tentativa, após 20minutos, falhou ! Um jovem do norte, equipado de vermelho, vinha também a passo, com os pés cheios de areia e trazia unicamente uma garrafinha na mão, já com pouca água. Aconselhei-o a tirar a areia dos pés para não os ferir e ofereci-lhe o meu apoio para essa operação. Não quis, mas tenho a certeza de que viria a fazê-lo mais tarde, pois só estava feito pouco mais de um quarto da prova.
O sol, impiedoso, batia forte, projectando na areia toda a minha sombra em menos de um metro. Apesar de ter tido a precaução da aplicar protector principalmente nas partes (nas partes?) mais expostas, começava a sentir alguns ameaços de escaldão. Felizmente, não passou de ameaços
Nisto, aproximam-se duas atletas : a Tânia Machado e a Rita Carrola, da Açoreana-Banif, minhas colegas de equipa. Diz a Tânia :- “para o ano é umas coisas dessas que eu trago!” referindo-se ao meu calçado. De imediato lhe disse que não era grande coisa, pois deixava entrar a água. Aproveitando a passagem da motoquatro da organização, ela pediu para lhe levarem os tenis e optou por correr descalça. E lá foram as duas continuando sempre a ganhar terreno.
Às 3 horas de prova, sou ultrapassado por um atleta que vinha num passo que era uma “desgraça”, mas mantinha-se em corrida e a verdade é que em 5 minutos deixei de o ver ! Pensei então, que era muito importante manter um passo de corrida. Lembrei-me daquela máxima acerca do sorriso : “corre ainda que o teu passo seja triste, porque mais triste que o teu passo triste, é a tristeza de não saber correr”! E pus-me a dar à perna. A pouco e pouco, vou ganhando um ritmo aceitável e até vou ganhando posições.
28,5km. Vinha bem. Aceito as duas garrafinhas de água, bem mais fresquinha que a da mochila, e, com sofreguidão, não resisti a uns bons goles. Asneira. Lá vem a náusea e o desconforto e tive de me pôr a passo outra vez, à espera de melhores momentos.
Passa o José Valentim, que me convida a segui-lo, mas não fui capaz. Mas dali a bocado, recomecei e apanhei-o. Estava ele, entusiasmado a olhar o mar e disse-me:
-Oh Andrade, olha p’r ali ! Não vês uma baleia ? Olha! Olha! – e fazia-me seguir com os olhos a direcção que ele apontava com o dedo.
-Onde?
-Ali, ali, oh,oh!!!
Eu não podia parar. Ia saltitando, tentando, ao mesmo tempo, descortinar a baleia que ele dizia que ali estava.
Às tantas, digo-lhe : - Ãh,ãh! Iiiiiiiiii...
Não tinha visto nada, mas a verdade é que se parasse, sabia lá quando é que voltaria a ter vontade de correr!?
Sei que é feio o que disse, mas, dadas as circunstâncias, o Zé Valentim, grande amigo das grandes jornadas, vai-me perdoar ter “concordado” só para me despachar.
Hoje, no jornal, vi a notícia : “Tubarão-Frade assusta costa alentejana” ! E trazia a fotografia do bicho, a poucos metros dos banhistas de uma das praias por onde passámos, por volta da hora do almoço.

.../...

Fui novamente alcançado pelo Valentim e ele aconselhou-me a não ir a passo; para tentar encontrar uma marcha que nem seja a andar nem a correr. Dei-lhe razão e viemos os dois alguns quilómetros, quando ele me disse para eu continuar que ele já não conseguia. Tentei dar-lhe o mesmo conselho que ele me dera, mas não resultou. Pôs-se a passo e eu contava que me acontecesse o mesmo lá mais para a frente.
Uma senhora vinha a caminhar, em sentido contrário e diz-me : -“Vá já falta pouco, que eu saí de lá!”- O que ela não disse foi a que horas saíu, pois não se viam sinais da meta! Quando vejo o pórtico branco da meta lá longe, já me custava a acreditar. Só depois da última curva é que me certifico de que aquilo era mesmo o “ponto final” desta longa caminhada.
Entro na areia solta. Naqueles 50m de areia que eram a “passadeira da glória”. 6.27.32!
Alguém agachado junto ao pórtico, aplaudia mais vibrantemente a minha chegada. Era o Rui Lacerda! Apetecia-me “entrar” com ele, dizendo com uma “vozinha de vodafone desgastada” : “ontem à noite, Ãin !?” mas muito mais desgastado que a voz, estava todo eu!
Em vez de andar, cambaleava. As pernas não obedeciam. A tenda da Cruz Vermelha tinha “clientela” com fartura: uns faziam massagens, outros tratavam das caimbras e das bolhas dos pés (tás bom Jorge?!). Recebo o saco e vou direitinho à tenda, para me sentar e refrescar com a soborosíssima melancia e o saborosíssimo melão e a saborosíssima sombra e o apetecidíssimo repouso.

Ahhhhh! “Bendita a fruta da vossa tenda! De truz!”

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