segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Badajoz à vista

Participar numa Maratona não é só dispor-se a correr 42195m. Há toda uma envolvência que deve ser absorvida, para dar consistência àquilo a que nos propomos. E há um acervo de coisas passadas neste dia, que vêm à memória e que, ficando escritas, ajudarão a revivê-lo (Oh happy days...).

Saímos (eu e o Carlos Neto) cedo e passámos por por Setúbal, onde o João Hébil viria ao nosso encontro para nos entregar os comprovativos das inscrições e depois, fizemos uma nova paragem em Estremoz por assuntos de trabalho.

Quando chegámos a Badajoz (14,30 locais) já estava o secretariado fechado para almoço, pelo que não nos foi possível levantar os dorsais.

Perguntei onde se estava a realizar o almoço da Maratona e informaram-me que era pertinho, no Complejo "Alcântara" um local bastante aprazível, que tinha muitos carros parados ali nas imediações. Carros havia –e muitos- mas pessoas …nada! –Mau!!! Perguntei a uma rapariga que estava por ali no jardim, num "portunhol" que ela deverá ter entendido bem, mas não sabia de nada. Estranhei, pois se fosse ali o almoço, teria de haver "sinais" de atletas. Continuámos a abrir tudo quanto era porta em busca dos tais sinais. Por sorte apareceu um rapaz (namorado dela?) , que nos disse que era na porta onde ainda não tínhamos ido. Entrámos: um enorme salão completamente preenchido por "maratonianos" e acompanhantes, já a "dar ao serrote", animadamente. Íamos para entrar, quando nos pedem o talão de ingresso. Mostrei os comprovativos da inscrição e informei que ainda não tínhamos levantado os dorsais, pelo que ainda não tínhamos esses talões. E vem o curto diálogo :
"- Entonces tienen que pagar 6 € !"
- "Si, pero non me parece justo, pois non tiengo culpa que el secretariado esteja cerrado!"

Quando ia para pagar, o rapaz disse-nos : - " Um momento que vamos contactar la organizacion!"

Veio a resposta positiva e deixaram-nos entrar, com a condição de lhes levar os talões logo que os tivéssemos.

Girámos a cabeça, a ver se encontrávamos lugares vagos junto de alguém conhecido, mas apareceu logo uma funcionária, indicando-nos os lugares que deveríamos ocupar. Já trariam cadeiras e pratos.

Causou-nos alguma estranheza, pois estamos mais familiarizados com o self-service.
Educadamente, os nossos companheiros de mesa, aguardaram que nos servissem para comermos todos ao mesmo tempo (o que não demorou muito tempo, mas registei com agrado este gesto).

Os funcionários, fardados a rigor, de preto com galões dourados, circulavam pelas mesas com agilidade, para que não nos faltasse nada.

A um primeiro prato de massas, por sinal, muito saborosas (que repetimos), seguiu-se um outro composto por um bife panado com batatas fritas e salada. As bebidas, pão e a fruta já estavam colocados na mesa.

Primeira impressão muito positiva.

Terminado o almoço, encaminhámo-nos para o secretariado. Só abria às 16h, pelo que tivemos de fazer um compasso de espera. Fomos verificar a lista de inscritos, quando deparámos com a Chantal e o Jaime Lamego, com quem estive à conversa por alguns minutos, até que fomos levantar os dorsais. Sem qualquer tipo de contratempo, rapidamente nos deram "la bolsa do corredor" que continha para além do dorsal, um equipamento completo (em branco e azul) comemorativo desta maratona e uma t-shirt vermelha da Cruz Campo, um brinde da Coca Cola e... lá estava ele: o talão do almoço. O homem lembrou-se logo que tínhamos estado a almoçar sem a senha e tratou logo de a retirar do saco, não fôssemos nós dá-la a alguém que quisesse comer à borla. Tudo bem. Poupou-nos o trabalho de ir entregá-las a 500m dali, ou o esquecimento de um compromisso que tínhamos assumido.

Feito isto regressámos a Estremoz, onde iríamos pernoitar no Monte que o Carlos Neto ali tem, bem perto dos campos onde, vai para 350 anos, se deu a sangrenta Batalha do Ameixial,uma das mais pesadas derrotas das tropas espanholas na Guerra da Restauração.E deixou marcas na população local, principalmente a mais idosa, a quem foram contadas lendas relacionadas com essa batalha. Hoje, fica a dúvida, se terá valido a pena, pois o conceito de fronteira é cada vez mais posto em causa.

Caíu a noite e a escuridão era total! Sem iluminação pública num raio que a vista alcançasse, contemplei o breu com a mesma admiração do verde que ali estava horas antes, pois era mágico como um pequeno retorcer do planeta esconde dos nossos olhos as espectaculares paisagens que a mãe natureza nos oferece. Lembrei-me do Ensaio sobre a Cegueira.

Durante a noite, o temporal que varreu todo o País, sentia-se –e bem- por aquelas bandas. Vento e chuva fortes, fazia-nos pensar que loucura era aquela que nos levava a ter de madrugar no dia seguinte e ir enfrentar a intempérie? Gostar de correr, será assim uma coisa primária ou ... antes muito complexa?

Seis da matina : toca o despertador. Parece que não, mas uma hora na diferença horária entre Portugal e Espanha, troca-nos um bocado as voltas Preparámos a tralha e ...ala , que ainda tinhamos de encontrar uma tasca aberta para tomarmos o pequeno almoço.

(.../...)

6 comentários:

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Fernando... absolutamente absorvente! Aguardo ansiosa o capítulo II.

Ana Pereira

António Almeida disse...

Caro Fernando
parabéns por mais uma maratona corrida.
Excelente relato inicial muito interessante.

Claro que hoje o conceito de fronteira não é o mesmo de outras épocas, muito menos a soberania, se calhar até mais esta.
De qualquer modo é bom recordar que o Tratado de Alcanices assinado em 1297 entre Portugal e Espanha, o qual estabelece as fronteiras mais antigas da Europa, continua em vigor pese o facto de existir pelo menos um caso de violação do mesmo tratado por parte de “nuestros hermanos”, Olivença pois claro.
Ensaio sobre a cegueira, um livro brilhante de um português mal-amado na sua terra, idolatrado em Espanha, afinal parece mesmo que as fronteiras existem e são bem reais.
Grande abraço,
antónio

Mark Velhote disse...

Um relato ainda acima do nível habitual (se tal era possível)...

Qual é a previsão dos próximos capítulos? :D

Abraço

luis mota disse...

Olá Fernando!
O fantástico relato da parte da Maratona que perdi e aqui consegui recuperar.
Grande abraço
Luís Mota

joaquim adelino disse...

Amigo Fernando também aguardo com elevado interesse o restante da história. A 1ª parte está magnífica.
Um abraço.

Fernando Andrade. disse...

Muito Obrigado
Ana
António
Mark
Luis e
Adelino
por terem lido o meu relato e pelos simpáticos comentários que aqui deixaram. Há sempre mais qualquer coisa para contar, mas que escapa. De qualquer forma, o resto desta saga já está disponível para os que tiverem a paciência de ler.
Grande Abraço.