sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Batam" leve, levemente...



Era para responder aos comentários do texto anterior, com um outro comentário. Mas achei melhor fazer um novo, para mais fácil visibilidade.

Eu sabia. Eu sabia que estava a pôr-me a jeito para levar tareia, pois a grande maioria dos meus amigos condena a campanha que foi feita. E eu, embora não pareça, em termos pessoais, também condeno. Mas não custa compreender que muita gente tenha visto nesta campanha, a oportunidade para abastecer-se como não o fazia há muito tempo. Houve excessos? Houve. Houve ganância? Houve. Houve gente a fazer compras que não precisava e agora vai ver-se aflito para pagar outras contas? Houve. Mas isso tem a ver com a mentalidade das pessoas, com a sua educação. E quem é que não sabe que o capital explora essa condição?

Ter-se escolhido o 1º de Maio? OK, também aceito que deviam ter escolhido outra data.

Quanto à "dignidade" é coisa que varia na razão inversa da "necessidade". Lembro-me que, em miúdo, o padre cá da terra, que juntava a criançada no salão paroquial em pequenas peças de teatro, volta e meia, lançava para o ar mãos cheias de rebuçados, que nós, em movimentos tão rápidos quanto possível, apanhávamos do chão. À distância, parece-me que o rastejar para apanhar rebuçados, é uma atitude indigna, mas na altura, o pensamento era simples: ou o fazia, ou não comia os rebuçados. Não pensava na perda da dignidade. Queríamos era que o padre atirasse mais rebuçados.

Infelizmente, sabe-se que quem está por cima joga com as necessidades dos outros.

A atitude indigna não estava no acto de dar os rebuçados, mas na forma como os dava e quem perdia a dignidade não era quem rastejava para apanhar os rebuçados, mas quem os atirava para o ar ou para o chão.

Ao dizer isto estou a dar razão aos meus amigos que comentaram, mas mantenho que, sob o ponto de vista de um povo necessitado, é compreensível que tenha aproveitado a oportunidade, ainda que ao fazê-lo, possam ter em mente:"-Porque é que estes cabrões não fazem isto todos os dias?", expiando com o palavrão, a dignidade perdida.

1 comentário:

Jorge Branco disse...

Até estou de acordo com muito do que o amigo diz mas tenho uma grande dúvida: será que a esmagadora maioria dos que lá foram eram assim tão necessitados?
Sim porque quem está verdadeiramente aflito penso que não consegue fazer um investimento de cinquenta euros que (se não estou a meter agua) era o valor mínimo que se era obrigado a gastar (100€ em comparas que com o desconto fica nos tais 50€)
Penso que aquilo foi mais aproveitado por oportunistas do que por necessitados.
Mas mantenho que aquilo foi feito basicamente com a intenção de causar confusão com o feriado do 1º de Maio e arranjar uma forma ardilosa de dividir as pessoas quanto ao facto de se abrir uma cadeia de supermercados num dia que não é um simples feriado mas sim um data com um significado muito importante para os trabalhadores.
Claro que há sempre quem tenha de trabalhar no 1º de Maio mas isso tem a ver com a natureza da profissão que se exerce e não vejo que seja necessário um hipermercado estar aberto no primeiro de Maio.
E já agora não nos esquecemos que até havia um pré aviso de greve e nem isso foi respeitado. Cada vez se vive mais num regime de terror do quem quer, posso e mando.