terça-feira, 16 de junho de 2009

100Km/24h - II



A água já não me satisfazia, pois continuava a sentir o estômago vazio. A temperatura (vim a saber que rondava os 40º!) potenciava a minha “desgraça” e ia ficando fragilizado. Cada vez mais se ia apoderando de mim a ideia negra de que se ainda não tinha um terço da prova feita e já estava assim, como é que poderia completá-la ?! O João bem que tentava fazer-me pensar de outra forma : -“bolas, não penses no que falta. Pensa em chegar a Colmenar (38Km) e aí, comemos, descansamos um bocadinho e depois logo se vê a etapa seguinte!”. Eu sabia que ele tinha razão e tentei seguir os eu conselho. O percurso agora era plano e até descia ligeiramente. Reiniciámos o passo de corrida, que durou apenas um ou dois km. Mesmo a descer, já tinha de ir a andar ! “Ná… isto não pode ser só psicológico!” – pensava eu, pois nunca me tinha visto numa situação daquelas, sem força nas pernas. Passámos por um charco, de onde saía um atleta que se tinha ido refrescar. Eu também tinha de lá ir. Achava que não me podia molhar por receio de que a água retirasse o protector e a pele ficasse vulnerável ao mais que certo escaldão. Desço e encharco o chapéu, voltando a pô-lo na cabeça para “refrescar as ideias”. Aceito a ajuda de um corredor que passava, que me estende a mão para subir a rampa e retomo a marcha. Faço uma tentativa de compreensão (pelo menos teórica) do que se estaria a passar comigo : -nunca tinha corrido (ou caminhado) debaixo de 40º; a altitude andaria pelos 8oom, logo o ar estaria mais rarefeito e ao mesmo volume corresponderia menos oxigénio; as perdas da transpiração não poderiam ser repostas apenas com água, pois os sais (sódio, principalmente) também precisaria ser reposto, ou a hiponatrémia iria a fazer das suas; comecei a ficar desapontado por levar comigo uma bolsa sem que nela houvesse alguma coisa que pudesse valer-me! Tudo isto enquanto caminhava, ouvindo o que o João, paciente, me ia dizendo. Lá está outra tenda : Água e glicosport. O João, no seu castelhano perfeito, pergunta à rapariga se tinha um pouco de sal. Resposta :”- quê? Sal? Si pero em mi casa !” . Um atleta, faz-me o gesto para lamber os braços e eu até já me tinha lembrado disso, não fora a camada de protector com que cobria a pele exposta. Não dava. Afasto-me um pouco, nauseado, e “esvazio” a água que tinha no estômago. A sensação de náusea desapareceu, mas não sentia melhoria na condição. Agora, seguia-se um troço ao longo da linha do comboio. Interminável. Digo para o João que assim que encontrasse uma sombra iria sentar-me um bocadinho a ver se reanimava. Lá estava uma! Sentei-me um bocadinho numa pedra e ia-mos vendo os outros a passarem, caminhando num ritmo certo, de fazer inveja. Já ninguém passava a correr. Estar à sombra ou não era quase a mesma coisa pois a temperatura era igual, só que não recebia o sol directo. Talvez dez minutos depois, retomámos a marcha. Nesta altura já o João se conforma que, naquelas condições, era melhor interromper a prova e pergunta-me se queria que chamasse o socorro. Disse que não, que iríamos prosseguindo lentamente até ao próximo abastecimento. Este correspondia ao primeiro que tínhamos encontrado, pois uma vez saídos da linha do comboio, voltámos a percorrer o mesmo caminho do início. Água e havia também umas barras de cereais. Tentei comer uma, mas… “veio fora” , pois o estômago não aguentava nada. Sentei-me. Tinha percorrido cerca de 33Km! Olhei para o relógio do telemóvel, que marcava 4,30h de prova. O João disse-me para esperar ali, que ele iria buscar o carro (que estava a cerca de 5 km dali) e arrancou a correr (via-se que estava bastante bem). E fiquei ali sentado a “vê-los passar”. Alguns metiam-se comigo. Percebia as piadas de uns, de outros não, mas retribuía com um sorriso e um sinal de “que se tinham acabado as pilhas”.

13 comentários:

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Oh Fernando, não sei se é sugestão, mas até me estou a sentir ligeiramente nauseada...

Só espero que esteja a recuperar bem, e olhe, de facto, a coisa correu mal, mas há vários factores que o justificam.

Agora, recupere, recupere por favor.

Um beijinho
Ana

Gustavo e Karla disse...

Que luta em?! Parabéns pela garra e pela força de vontade! Acho que nosso esporte realmente se resume a isso superação ir até o nosso limite!
Abraços!

António Almeida disse...

Amigo Fernando
uma rápida e boa recuperação.
Excelente relato como sempre.
Abraço.

Victor silva disse...

Amigo Fernando

O desânimo é passageiro, a vontade de vencer é eterna e recompensadora. Correu mal desta vez, mas para a próxima são favas contadas, não duvido nada. Ânimo, ânimo

Abraço

Fernando P disse...

Olá Fernando,
Que dizer? A decepção deve ser enorme, mas há que ultrapassá-la! Nessas condições seria suicidário insistir. Aliás uma tal prova com 40°, só por milagre é que não haveria estragos! Imagino que o Fernando não foi o único.
Como sempre, um relato palpitante. Sentimos o que vai na alma e nas tripas!
Agora há que recuperar e pensar no próximo desafio.
Um abraço,
Fernando P

JH disse...

Olá !
Propositadamente não tinha ainda entrado, porque esperava dados concretos da prova. A prova foi a segunda mais calorosa de sempre só superada em 2002 em que se alcançaram os 47 - 48ª. Este ano não se passou dos 42º ... mas foi o ano desde a sua existência em que menos pessoas acabaram (só 334). Junto o comunicado da organização (em Espanhol) para aquele que tiver pachorra para ler.
(por partes que é grande...)

O que constato aqui no blog do Fernando é que vocês o mimam demasiado e claro, ele depois vai às provas e não rende ...
De resto se corremos pouco, falamos muito assim que já durante o próprio dia e o seguinte tivemos ocasião de dissecar o assunto. E como dizia um filósofo o número de vezes que te levantas tem que ser igual ao número de vezes que cais (ou algo parecido.).

E já está. Parece que já te levantastes.
Abraço,
João Hébil


La organización de los 100 km en 24 horas desea manifestar y exponer a todos los participantes de la prueba lo siguiente:

1.- Nunca hemos escondido las críticas que se hayan podido recibir y menos aún lo vamos a hacer en esta edición. En la puesta en marcha de este evento, pionero en España, no nos mueve el interés económico y sí un sentimiento de servicio absoluto a los participantes. Por ellos y para ellos, nos entregamos el personal de las revistas Corricolari y Airelibre -y un contratado y seleccionado grupo de voluntarios- varios días y noches.

2.- El posible error de previsión en las cantidades de agua enviadas a los 2 primeros puntos del recorrido -ya superiores a años anteriores- pudo venir motivado por la gran cantidad consumida por los participantes que llegaban en los primeros lugares y, sin duda, por las elevadísimas temperaturas que superaban incluso las anunciadas por la AEMET (36º-37º), cuando los 41º-42º fueron muy habituales en ciertos puntos. Era difícil trasladar más agua y más fría pues los tres vehículos todoterreno de la organización no dejaban de ayudar a la Cruz Roja y a Protección Civil AOR a recoger gente afectada por mareos, golpes de calor, vómitos, algún esguince... Participantes que en algunos casos manifestaban tal ansiedad, tales deseos de ser trasladados al polideportivo de Colmenar, que impedían realizar otras funciones.

JH disse...

3.- Hasta tres eran también los camiones frigoríficos existentes en la prueba para enfriar el agua y los zumos. Incluso una empresa traía hielo. Pero la prueba desde el primer momento daba a entender que estábamos ante una edición compleja y difícil. Superior incluso a la de 2002 cuando las temperaturas alcanzaron los 47º-48º. Lo pone absolutamente de manifiesto el número de participantes que finalizaron la prueba, solo 334 de los 1.070 que tomaron la salida, la cifra más baja de todas las quince ediciones de los 100 km en 24 horas. Probablemente en muchos casos consecuencia de esas elevadas temperaturas y en algún caso, quizá, consecuencia de esos fallos de abastecimiento o temperatura del agua. A nadie le duele más que a nosotros. Aceptamos y recogemos esas críticas. Tanto las que se hicieron elevadas de tono –muy pocas, una o dos-, como las que se hicieron con enorme corrección y respeto.

4.- Dar a conocer la complejidad organizativa de los 100 km en 24 horas sería muy largo, pero desde la atalaya que nos posibilita el conocimiento de casi todos los eventos deportivos, queremos deciros que estamos hablando por diversos motivos, del más complicado de todos. Camiones de traslados de material -este año con la ausencia del Ejército-, furgonetas, todoterrenos, personal médico, autobuses de recogida de retirados, habilitación de polideportivos –este año también con ese pequeño espacio en San Sebastián de los Reyes-, marcaje de recorrido (y remarcaje, pues son quitadas numerosas señales), y mil vicisitudes diversas son tenidas en cuenta. Intentamos dar solución a todas las necesidades que pueda requerir el participante, pero eso no exime de algunos fallos de previsión que podamos tener como ha sucedido en la edición de 2009. Pedimos nuestras disculpas a quienes puedan haberse visto afectados. Pero también queremos comunicar que hemos recibido numerosos correos de agradecimiento y felicitación que nos hacen felices, pero que no evitan el “manifiesto” sentimiento de insatisfacción que nos ha dejado ese pequeño fallo de abastecimiento de agua en dos puntos y su elevada temperatura.

5.- Gracias a todos por vuestra presencia en la prueba. Ánimo a quienes no pudieron completarla y enhorabuena a quienes consiguieron finalizarla. En la página web de corricolari (www.corricolari.es), así como en las ediciones de papel de corricolari y AireLibre, publicaremos la relación de llegados a meta y el reportaje fotográfico de la prueba.


AireLibre - Corricolari

José Alberto disse...

Amigo Fernando,

Desejo-lhe uma boa recuperação, física, porque psicológica está bem de ver que a ultrapassa fácilmente.

Testarmos os nossos limites é bom, ultrapassá-los... bem, já é mais perigoso.

Como se costuma dizer, para o ano há mais, se não forem ultras serão "simples" maratonas.

Abraço
José Alberto

Fernando Andrade. disse...

Olá Ana
Não posso dizer que me sinta exausto (até porque só fiz 33km em passo de passeio) pelo que os seus votos de boa recuperação já se concretizaram.
Mas olhe que e fiquei com a "pancada" de voltar a "intentar por supuesto".
Grande Beijinho
FA

Gustavo e Karla
Obrigado pela visita e pelas palavras aqui deixadas. Concordo convosco quando dizem que na Corrida existem estranhas forças que nos fazem procurar os nossos limites.


Amigo Almeida
Muito obrigado pelas palavras e... ainda hei-de vê-lo nestas maluqueiras...

Amigo Victor
Um ultra a sério sabe do que fala. Obrigado pela citação, que nos anima manter um rumo. Desta vez, foi apenas uma retirada estratégica, como disse o Carlos Fonseca.

Fernando P.
A decepção existiu, mas não foi muito grande, pois o "investimento" feito não a mereceria. Conforme disse noutro local, pensei nisto com um mês de antecedência. Se o tivesse feito há seis e me tivesse preparado afincadamente para o evento, aí sairia mesmo frustrado. E a verdade é que com estes 40º o abandono seria certo, por muito que o quisesse contrariar e isso só agravaria a minha saúde.

Oh João

Então tu falas que "este ano não passou dos 42º", como se tivesse estado fresquinho !!! És "terrível"!
Dizes bem que "já me levantei"! Já, sim senhor. Só falta mostrar que "me aguento de pé" e isso, em 2010 será posto à prova.
Quanto ao comunicado da organização irei pô-lo no corpo de mensagem, pois diz muito melhor o que se passou "naquele dia".

Caro José Alberto
Não faz parte dos meus planos ultrapassar os meus limites. O abandono da prova (que não estava nas minhas previsões) é disso testemunho. Gosto de correr com prazer e não em sofrimento.

Diz muito bem: para o ano há mais,se não forem ultras que sejam maratonas...simplesmente.

A todos, queridos amigos
muito obrigado pelas vossas palavras "mimadas".
Grande abraço.
FA

joaquim adelino disse...

Agora terminada a odisseia, da corrida e da escrita sobre ela, apenas te digo que conforme entraste em glória enfrentando este duríssimo desafio da mesma forma assim saíste, em glória. Os limites foram atingidos e a inteligência do abandono resume bem a avaliação dos riscos que estavam em causa e só a grande experiência de muitos anos como conhecedor e praticante permitiu a saída em honra salvaguardando em 1º lugar a tua saúde e bem estar.
Nós aprendemos todos os dias e esta dura lição alerta-nos a todos. Obrigado por contares esta história com os pormenores vividos e tão esclarecedores.
Aceito o convite para um treino na Areia para a semana que vem, na Costa ou em tróia.
Abraço.

José Xavier disse...

Meu Caro Fernando;

Gostei da sua experiencia aqui contada.
Espero que esteja a recuperar bem. Decerto vai tudo dar bem nos próximos dias e estar novamente apto aos novos desafios da corrida de estrada.

Sofrer e aprender é sempre um bom desafio.

Um abraco amigo

José xavier - Holanda

Rui Pena disse...

Caro Fernando,

Foça com isso.


Abraço,

Rui

MPaiva disse...

Fernando,

Estava escrito algures que ainda não era naquele dia que a barreira dos 100 iria ser quebrada.
Estou certo de que esse dia chegará!

abraço
MPaiva