quarta-feira, 9 de junho de 2010

Os “últimos”, esses vencedores...

O nosso amigo Jorge Branco, do "Último km", experiente entusiasta da Corrida, na sua recente participação na 2ª Meia Maratona na Areia


Tudo o que aqui disser, não será mais que a constatação de trivialidades que todos conhecem e que se apresentam desligadas, avulsas. Mas que sejam essas trivialidades o ponto de partida para uma reflexão necessária em favor do movimento da corrida.

Falar dos “últimos” não é fácil. Até porque na corrida não há “últimos”. O primeiro também seria o “último” se corresse sozinho, ou se todos os outros desistissem…E, em termos mais competitivos, os que chegam hoje em “últimos”, poderão amanhã ser os primeiros se estiverem numa fase transitória da preparação. Sempre que falar de “últimos” colocarei aspas.

Aquilo que dá virtude à corrida é ser uma actividade acessível a todos: aos que correm mais depressa e aos que correm mais devagar. Estes, onde me incluo, que se dispõem a participar conscientes das suas limitações, levam alegria e movimento às nossas estradas e demonstram a quem não corre, que não é preciso estar-se obcecado por chegar primeiro, para que se saia vencedor; para que se ande contente no desporto.

Chegar ao fim, com aquilo a que nos propomos, independentemente do tempo que levarmos, é, de facto, a grande mensagem que transportamos connosco, em cada prova em que participamos.

Correr sem a pressão de ter de chegar primeiro, dá-nos um bem estar, incomparavelmente maior. Aí, ganhamos. Mas é também justo que aos outros - os primeiros - os que sofrem na sua preparação, os que sofrem a ansiedade da partida e que sofrem ao longo da prova a agressão de trabalhar no limite, se lhes reconheça o mérito e se lhes atribuam os merecidos prémios.

Porém, o papel dos “últimos”, ou melhor, dos mais lentos, nas actuais circunstâncias do nosso desporto, é pioneiro na mudança das mentalidades habituadas a ver os desportos como eventos em que há apenas um vencedor. E quando não se ganha, ou se sabe à partida que não se vai ganhar, entende-se que já não vale a pena participar, pois isso é dar a satisfação da vitória a outro.

A lógica da vitória e da derrota terá de ser minimizada!

No fundo, os verdadeiros últimos são aqueles que, podendo correr, não correm.

É verdade que numa corrida, para meia dúzia de atletas mais dotados, há apenas uma competição! Mas há outras tantas competições, quantos os atletas participantes, pois cada um compete consigo próprio, marca os seus objectivos e tenta cumpri-los! São sempre equacionados os objectivos e a performance e sabe-se também que não se poderá apontar para grande marca, quando também se sabe que a preparação necessária não foi suficientemente cumprida.

Mas participa-se. Far-se-á mais 10 minutos que o normal, mas isso não impede de se figurar na festa desportiva, em mais um “convívio em movimento”.

E nisto também há a nossa quota-parte na vitória do 1º, pois ser 1º entre milhares é diferente de ser 1º entre 10 que lutariam por esse lugar. Se perguntarem ao 1º, quantos eram, ele terá mais satisfação em dizer que eram muitos. E se eu estiver lá, entre esses muitos, sentirei que dei o meu contributo para a sua vitória.

Aqueles que têm a sorte de poder correr e não correm têm um mundo por descobrir e não sabem. Quando corro, lembro-me muitas vezes destas pessoas e das outras que tanto o desejariam fazer e não podem.

A alegria de acabar uma corrida, comentar com os companheiros mais uma jornada, voltar para casa esquecendo-se até de perguntar quem foi o primeiro, revela o sentimento de que, afinal, quem ganhou também fomos nós.

Quanta satisfação nos daria, saber que a grande maioria do nosso povo, via o desporto desta maneira? Sabemos que outros povos, noutras paragens, encaram a corrida como a forma mais simples de fazer exercício físico. Talvez por isso têm um índice de corredores bastante significativo. Isto em sociedades bem mais desenvolvidas que a nossa. Mas será essa uma forma tão extraordinária de cultura, que a mentalidade lusa não consiga atingir?

O significado da corrida para um povo, conforme o mote lançado pelo nosso incansável amigo e promotor de corridas Jorge Teixeira, só assumirá alguma relevância, quando a sua cultura desportiva lhe permita compreender que, independentemente de se ser último ou primeiro, o essencial do que fica após cada corrida, não será o prémio que nos dão no final, mas sim aquilo que fica em nós mesmos, na nossa vivência desportiva. O prazer de nos confrontarmos com a nossa própria condição. Isso é o que nos enriquece, para além de sabermos que são os “últimos” que legitimam a existência dos primeiros. A importância de ambos para o evento é idêntica.

Sem tristeza vos digo que nunca ganhei uma corrida.
Com orgulho vos digo que continuarei a participar em todas as que puder. Enquanto puder.


Fernando Andrade
Porto, 18.Junho. 2005

11 comentários:

Manequinho Correia disse...

É engraçado como as histórias de corridas se parecem tanto... Tive uma unica oportunidade de correr na areia e foi muito duto... Muito mesmo... Meu relato (http://blogdomanequinho.blogspot.com/2010/03/20100321-25-km-interpraias-bertioga.html) é muito parecido com o seu... As experiências são praticamene idênticas..... Chegar bem é dificil mesmo..... Bons treinos.. Otimos posts.. Parabens...

Avicor disse...

Fala amigo Fernando blza !!
é rapaz correr na areia é broca !! ja tive essa experiencia !!

Valeu um abraço !!

Romildo freitas

Anónimo disse...

olá Fernando
excelente post, parabéns. muito me revejo nas suas palavras. é que para se ser tartaruga, a filosofia tem que ser mesmo esta, a de começar a ganhar dando o 1º passo. o resto, serão as estórias para contar e é o que fica.
ganhar? é sempre efémero, pois o momento passa. curiosamente do 1º, fica sempre o mesmo que do último: uma pessoa mais enriquecida pela experiência da aventura como atleta.
abraço
até breve
ab - tartaruga

Jorge Branco disse...

Texto simplesmente magistral amigo Fernando!
Agora quando eu chegar em último vou-me sentir vaidoso que nem um pavão.
Também aprendi aqui pelos comentários que correr na areia é broca!
Pensei que tinha vindo todo roto da Meia Na Areia afinal vim de lá todo furado!
Só não gosto da foto do “rapaz” que meu meteu neste texto (recuso-me a dizer “post”).
Grande abraço.

Fernando Andrade. disse...

Olá Maneco.
Bem vindo ao cidadão. Obrigado pela visita. Gostei muito do seu espaço e quero segui-lo com regularidade, mas não consegui acrescentar o meu nome à sua lista de seguidores.
Voltarei a tentar.

Amigo Romildo
é sempre bom vê-lo por aqui. Quanto ao correr na areia...até gosto.

Amigo A Bento
Muito obrigado pelas suas palavras, pois, como diz, elas encaixam-se no texto e, mais que no texto, na forma de estar na Corrida. Se se abrissem as mentalidades, teríamos muito mais gente a correr.


Grande abraço a todos.

FA

Fernando Andrade. disse...

Amigo Jorge
Como é agradável ler os seus comentários e desfrutar da sua sempre boa disposição.
"Correr na areia é broca", como diz o Romildo, é uma expressão giríssima que aplicou aqui da melhor maneira.
Quanto à "ao rapaz da foto" ilustra muito bem o que pretendo transmitir, não pela posição em que chega à meta, mas porque sei que apesar de "todo furado" partilha de uma grande alegria em cada chegada. Essa é a essência da mensagem.
Grande abraço.
FA

ana paula pinto disse...

Pois se é texto mais "antigo" que eu nas corridas, não me culpo ao dizer "não conhecia". Porém, se o não conhecesse seria imperdoável.
Ao lê-lo, e ao ler especialmente alguns parágrafos, foi inevitável rever-me aí. Eu e outra pessoa que querendo correr não podia...por isso, e o Fernando conhecedor da minha enorme pequenez no mundo das corridas me perdoe a veleidade, ao ler "a apologia dos últimos" pareceu-me ver umas "passadas" de mim. Talvez de mim, não...o Fernando sabe...lembrei-me de uma "estrelinha" que sem poder, "corria" comigo. Eu, entre muitos. E ela sorrindo na Meta.
(Passe a enorme distância entre o que pretendia transmitir, entre a sua experiência de atleta e o que eu senti ao ler, revi-me nas suas palavras. Emoção e sentimentos "ecoam" sem rumo diferentes)
Obrigada por partilhar connosco.

Ana Paula

Fernando Andrade. disse...

Olá Ana Paula
Que prazer "vê-la" por aqui e nem imagina o que estas palavras, ditas por si,cuja escrita tanto admiro, significam para mim. Se houve passagens do texto com as quais se identifica, fico mesmo muito feliz. De facto, na Corrida não há últimos. Esses são os que estão fora da Corrida... por quererem.
Grande beijinho, Paula.
FA

Fernando Andrade. disse...

Oh Paula
falou de quê? de "pequenez no mundo das corridas"???
Percebi mal concerteza! Admiro muito mais a sua garra do que a daqueles que chegam na frente (e que eu nem sei quem são). Gostar de Corrida e estar nela como a Paula está, nunca é "pequenez", mas grandeza. É esse exemplo que tem boas consequências para o nosso Desporto.
FA

tutta disse...

Sensacional este texto amigo Fernando.
Parabéns pela elaboração.
E concerteza, ser o "último" ou ser o primeiro, o que importa mesmo é o sentimento prazerozo que se tem ao cruzar mais uma linha de chegada.


Tutta
www.correndocorridas.blogspot.com

Fernando Andrade. disse...

Obrigado Tutta.
Esse comentário acerca dos "últimos", feito por um atleta que vai ao pódium, tem um valor ainda maior.
Grande abraço.
FA