terça-feira, 29 de junho de 2010

UTSF-Memorial Sálvio Nora

Por esse rio acima...



Depois de verificados os dorsais dos participantes e ouvidas as últimas indicações do Director da Prova, José Moutinho, quando eram 5 da manhã, ainda noite cerrada, é dada a partida. Ao som arrepiante de “1492 - The conquest of paradise” dos Vangelis, serra adentro, centena e meia de atletas, frontais acesos, com aquele som a penetrar-lhes na alma, sentiam elevar-se a outra dimensão: à dimensão ULTRA em versão “Extreme”.
Rapidamente se formou uma fila quando se chegou ao primeiro carreiro. Havia muitas “estrelas” no chão, como resultado da luz dos frontais reflectida na mica (ou seria do feldespato?, ou do quartzo?) do piso granítico que pisávamos. A primeira aldeia por onde passámos, não deu por nós, ainda dormia, embora já houvesse luz do dia. Era fácil esta parte do percurso. Atravessámos uma pequena ponte e subimos para outra aldeia, na encosta contrária da primeira, subida curta, que não criou dificuldade, tanto mais que foi feita a passo. Desce-se depois por um longo trilho (o do Carteiro) o qual, embora estreito, permitia a corrida até chegar a uma outra aldeia. A entrada no Rio Paivô obrigou-nos a caminhar nas margens pedregosas e escorregadias que para alguns proporcionou momentos hilariantes, para outros, momentos trágicos, com lesões que implicaram não só a desistência, como a obrigatoriedade de ter de continuar até chegar à estrada. Mas a travessia, com a água pelo pescoço, soube mesmo bem e não resisti a dar umas “braçadas”. A água estava (ou parecia-me )quentinha e não apetecia sair dali. Mas o tempo continuava a contar e o controle dos 20Km estava a pressionar. Ouvi o Moutinho dizer: “-Tendes meia hora para sair daí!”
Chegado ao abastecimento, comi uns bocadinhos de laranja e de banana e era preciso subir e depois descer até que passámos por uma outra aldeia, onde se substituiu a água já morna da mochila por água fresquinha. Aí, o empedrado da rua estava “atapetado” por caganitas de ovelha esmagadas pelos atletas que me antecederam e aquele cheiro típico fez-me recordar os meus tempos de infância. Os cães dormiam sem se incomodar com a passagem dos atletas .
Depois de uma subida em piso solto, chega-se a um pequeno planalto. Sentei-me numa manilha de cimento que ali estava e descansei um pouco. Descida para Drave, uma velha aldeia de xisto abandonada. Tirei umas fotos e, distraído, saí da rota. Quando dei por isso, todos aqueles que vinham no grupo que eu tinha ultrapassado, tomaram-me a dianteira e ganharam-me vantagem naquela que seria a 1ª subida a sério. Terrível! Nunca mais chegava lá acima. O trilho era em zigue-zague, assinalado por fitas no meio do mato. Era mesmo preciso parar de vez em quando, até atingir o cume. Depois vinha a descida por um estradão que serpenteava e onde consegui correr e chegar à torneira dos 31km.
Aí parei, sentei-me e ao ver a subida da Garra, com os atletas -quais pontos minúsculos na imensidão da montanha- a treparem, vagarosamente, lá longe. Fiquei com o moral em baixo. Se até ali eu me sentia todo "roto" (doía-me tudo) como é que conseguiria subir aquilo!? Só que não tinha outro remédio pois ali ninguém me ia buscar. No rio que se seguia, refresquei os pés por alguns minutos e retomei a marcha. Com dois paus de eucalipto, preparo dois bastões, para transferir para os braços uma parte da carga que até ali tinha ficado só por conta das pernas. Um deles partiu-se logo à saída do rio, mas o outro resistiu e acho que me deu jeito, pois custou-me muito menos esta subida que a anterior (talvez o efeito de um gel que tomei, se tenha também manifestado). Chego às eólicas (38km) e tinha 45m para chegar dentro do controle dos 40km, que era de 9h. Sentia-me bem e achava que não teria problema, pois o terreno agora era a descer. A verdade é que, quando tenho de desviar o mato para ver onde ponho os pés, comecei a ver que que tudo se iria complicar. E assim foi. Cheguei com 9,26h à Póvoa das Leiras, onde estavam outros 25 atletas que tinham terminado ali, uns por vontade própria, outros porque o tempo limite se tinha esgotado. Eu já me tinha decidido ficar, mesmo antes de saber que tinha excedido o tempo, pois constava-me que os 30Km seguintes iriam ser bem mais difíceis. E tantos com experiência comprovada, optaram pela desistência ..! Quem era eu, para continuar?! Dei assim, por finda a "minha actuação" naquele palco fantástico da Freita. Depois foi só esperar por transporte e ir ver os heróis que conseguiram levar até ao fim a jornada.
Voltarei ao assunto.

15 comentários:

Vitor Veloso disse...

Olá Fernando,
Deve de ser difícil tomar a decisão, desistir.
Pelo que relata a prova e mesmo difícil e perigosa.
fico aguardar pela continuação.
Forte abraço
Vítor

MarLee disse...

Nossa que lugar LIndo,
Parabéns!
\o/ eeeeeeeeeeee
\o/ Moveeeeeeeee
Bons treinos
..... ~o
......<\_
...(_)/(_) Marli PalugaN®
www.marleemove.blogspot.com
Atleta:Ciclista e Corredora de Rua

Jorge Branco disse...

Grande Fernando!
Que aventura brutal!
Eu nunca fui a Freita (nem devo ir porque já não tenho maquina para isso) mas como já andei por montanhas bem mais suaves posso imaginar o que foi!
Grande abraço!

ana paula pinto disse...

Fernando

Que prazer imenso ter lá estado, apesar de ter sido na corrida "minúscula". E que orgulho ter estado com o Fernando e mais uns quantos amigos, suficientemente ousados para alinhar na partida dos 70Km.

Um beijinhos e mais uma vez PARABÉNS! Vocês são todos ultra-vencedores!
E, esteja onde estiver Sálvio Nora (provavelmente no espírito da própria serra) está com um sorriso nos lábios.

Vitor Dias disse...

Grande Fernando

Nem tudo foi mau. A tua desistência fez com que tivéssemos muito tempo para conversar.
Só quem a fez (70 Km) sabe o que passou. Só quem lá esteve, teve uma pequena ideia do que se lá passou.
Aquilo realmente não é para qualquer um.
Quem nunca teve muita vontade de a fazer, como é o meu caso, dificilmente ganhou vontade.
Admiro quem o fez e não imagino a satisfação de quem o conseguiu.
Mesmo assim, ponho em dúvida que valha a pena tanto sacrifício.
Bom descanso e bons treinos para as próximas aventuras.

1 abc

Vitor Dias

Mário Lima disse...

Fernando

Pelos vistos estas provas que deveriam ser de prazer são autênticas odisseias que nem Homero.

Não entendo e nunca irei entender (embora seja novato neste tipo de provas) o que leva uma organização a levar ao extremo uma prova que deveria ter a sua componente de dificuldade mas que nunca essa mesma dificuldade coloque em risco a integridade física de quem a corre.

Não faz sentido tudo isso. Os Trails são para se correr quando se pode, e andar quando tal não é possível, mas nunca para fazer delas a Maratona do Saara por serras e serranias.

Desististe aos 40 km, fizeste bem. Quem esteve por trás de quem organizou uma prova desse calibre não a deve ter feito, fácil é traçar num mapa um percurso, difícil é concretizá-lo no terreno, isso não está ao alcance de qualquer mentor e o "super-homem" já morreu.

Abraços

Fernando Andrade. disse...

Olá Vitor
obrigado pelos seus comentários. A decisão de desistir não foi difícil, o que era difícil era continuar, mesmo que mo tivessem permitido.

MarLee
Não tenha dúvidas que o lugar é mesmo bonito, pena que tenha tanto de belo como de duro.

Caro Jorge
também eu não tenho "máquina" para aquilo, por isso fiquei-me, quando ainda o podia fazer bem disposto e não levar a coisa ao extremo. Acho que fiz bem e não fiquei chateado com isso.

Olá Paula
"minúscula" a corrida de 17km? De forma alguma. A grande é que acabou por ficar minúscula, para quem ficou a vê-la por um canudo,eheh. Gostei muito de a ver por estas terras serranas. Apesar de tudo, acho que vou voltar, nem que seja para passear sem a pressão do relógio.

Grande Vitor
Obrigado pelas tuas palavras. À medida que o tempo vai passando, vamos dissipando a decepção e o que fica na nossa mente é aquele deslumbrante cenário que vamos "absorvendo" enquanto o cansaço não retirar o discernimento. Guardo boas recordações daquelas 9h. As más foram só nos dois últimos kms.

A todos um grande abraço.
FA

JH disse...

Fernando,

Como a decisão que tomastes foi seguramente pensada, pois tivestes tempo suficiente para isso … foi a decisão correcta. Tu és (fostes) o melhor juiz da situação que viveste.
Agora também não estou de acordo com todas as criticas que leio, pois já nos vamos conhecendo e sabemos (muitas vezes não queremos é saber) ao que vamos. As provas do Moutinho são assim e todos sabemos. A sua organização assume riscos e os atletas também pois afinal em caso de acidente, a posteriori podemos discutir este Mundo e o outro acerca de responsabilidades, mas o primeiro afectado é o que sofre o acidente …
Dito isto onde estão os limites? Cada um põe os seus. Para o que passa a vida sentado a ver televisão uma prova de 10 Km é um Mundo, para outros uma maratona. Não se assumem riscos ao correr uma maratona? E por aí fora. Este tipo de provas extremas tem um público, e disso não tenham dúvidas. Pode haver 2 ou 2000 pessoas em Portugal mas existe um público, e senão não há mais que ver as diferentes provas “extreme” que há por esse Mundo fora. Todas com público e nenhuma desaparece … O Moutinho quer a mais dura em Portugal? Já verão que haverá sempre alguém que virá por-se à prova .O que se passa é que em Portugal são uma novidade recente.
Treinem e superem-se
João

Fernando Andrade. disse...

Amigo Mário
Peço desculpa de não ter respondido ainda ao teu comentário oportuno. De facto, existe um grau de dificuldade muito grande nesta prova, para além de ser demasiado longa. Enfim, há clientela para isso, mas pouca. Desafios difíceis são aliciantes mas tudo tem a sua conta. Quando achei que já estava a passar das marcas (mesmo usando sempre uma grande prudência) parei.
Já vi que sou do gênero : "Desafios? aceito-os todos, mas só termino alguns,eheh".

Grande abraço.
FA

Fernando Andrade. disse...

Grande João

Concordo contigo: quando nos inscrevemos, sabemos ao que vamos e o risco é nosso.Daí, não podermos estar à espera que em cada local perigoso haja socorristas de prevenção. Somos nós que temos de ponderar isso e esperar que não haja azar.
A minha única observação é que se se pretende aliciar atletas para este tipo de provas, há que se começar com mais calma. Ninguém se consegue adaptar se tiver o seu "baptismo" de montanha nesta prova. O grau de dificuldade, no meu entendimento, deve ser progressivo.
Enfim, este já está. Mas...tal como nos 100/24 ainda não fiquei convencido,eheheh.

Grande abraço.
FA

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

e estive lá agora, pelas palavras do Fernando...

Um beijinho e até breve

Ana Pereira

Manuel Romano disse...

Caro Fernando, parabéns pelo excelente relato, melhor era dificil! Tomar a decisão de desistir não deve ter sido fácil mas às vezes é melhor assim. O importante é mantermo-nos bem fisicamente. Um grande abraço!

Fernando Andrade. disse...

Olá, Ana
obrigado. Sei quanto iria gostar de andar por ali. Sem a maldita pressão do tempo. Para o ano, recomendo que vá até lá, mesmo que seja para fazer a "curta".Teremos então outro relato cheio de "sabor" e de emoções.
Grande beijinho, Ana.

Caro Manuel Romano
Então desta vez, deixou que o seu colega Luis Ferreira fosse o único "laranjinha" a usufruir das fantásticas paisagens (mas também do duríssimo traçado) da Freita.!? Mas que o concluíu com invejável, galhardia, lá isso ficou bem patente no historial da Prova e no seu corriculum.
Então e a próxima ? Melides? Óbidos?

Grande abraço.
FA

tutta disse...

Pelas imagens, a prova deve ter sido fantástica não é caro amigo Fernando?
Pena que tu não podes complatá-la por inteiro.
Mas valeu pela participação.
Parabéns


tutta

Fernando Andrade. disse...

Olá Tutta.
Obrigado pelo comentário, mas não fiquei frustrado por não ter concluído a prova. A preparação que fiz para ela foi quase nula. Só se fosse fácil lograria completá-la. Assim, difícil como ela era, só deu para os 40. Mas fiquei contente na mesma e com o desejo de voltar.
Grande abraço.
FA