quarta-feira, 30 de junho de 2010

UTSF-Memorial Sálvio Nora



Rio de Frades (no final do Trilho do Carteiro)


Quanto à minha opinião sobre o UTSF (e foi a primeira vez que lá estive) acho o seguinte: - Se o Moutinho, pela sua louvável dedicação a este tipo de provas, pretende captar mais gente para elas, escolheu mal, ao enveredar por esta versão "extreme", só ao alcance de muito poucos. Há que chamar as pessoas à montanha sim, mas de forma suave. Pelos comentários que ouvi (ainda a quente, é certo) muitos não querem lá voltar. Se o Moutinho pretende fazer do UTSF a "Prova mais difícil do Mundo", como ele diz orgulhosamente, aí fica reservada a meia dúzia de semi-deuses.
Os aspectos relacionados com a segurança, também merecem uma atenção especial, pois em pisos bastante perigosos (gostam de lhes chamar "técnicos"), se houver azar e o atleta não conseguir sair dali pelos seus próprios meios, estamos perante uma situação complicada para resolver. Mas aí, penso que pouco haverá a fazer, pois não é possível colocar nos sítios mais perigosos, equipas de socorristas de prevenção. Quanto à dureza do traçado, bom, ela foi anunciada e mostrada a sua altimetria com algumas indicações sobre as características do piso. O problema é que se devíamos saber o que tínhamos de trepar, não nos pareceu que o que tivéssemos de descer fosse tão complicado. Se a subida era lenta, para nos pouparmos, a descida era ainda mais lenta, para nos protegermos, pelo que não podíamos nunca compensar o tempo perdido. E o relógio não parava. E os postos de controlo eram implacáveis.
Também esteve mal, o Moutinho, quando, peremptoriamente, dizia que não seriam classificados os que chegassem depois das 15h de prova, quando já estava mais que provado que foi ele que falhou os cálculos. Esse limite foi determinante para o abandono de muitos. Já no dia seguinte, resolveu classificar todos os que chegassem à meta. Só que essa informação seria muito importante para os que, já tendo feito 60km viram que não conseguiriam chegar nas 15 h e optaram por abandonar. É caso para dizer que se fez justiça para quem foi persistente e injusto para quem acatou o Regulamento. O correcto seria dar instruções aos pontos de controlo para informar os atletas de que os limites tinham sido alargados.
Outra coisa que me doeu o coração foi o facto de ver atletas a chegar, darem-lhe um pólo e uma garrafa de água e, não fosse o locutor de serviço, Fernando Costa, fazer uma pequena entrevista a quem ia chegando, aquele momento que há tantas horas era esperado, não tinha a dignidade que merecia e se impunha. Um esforço épico merece uma lembrança especial, que não seja a pensar em aproveitamentos para futuras edições (parece que não puseram a edição no pólo) e é de nos deixarem estupefactos, quando juntamente com o dorsal nos dão uma t-shirt da… 2ª edição !!!
Estou convencido que dá muito trabalho, organizar um evento destes, de 70 km no meio da serra, em que aqueles que têm o privilégio de o completar, devem ter a grata sensação de missão cumprida e esse é o grande prémio. Mas a Organização também ficaria melhor, se tivesse uma lembrança para eles, na proporção do esforço efectuado. Não falo de coisas caras. Falo de coisas que até poderiam ser pedaços de xisto com uma inscrição tipo “ Eu completei o UTSF-27.Jun.2010”. Seria uma honrosa medalha, que todos teriam orgulho em mostrar, sem onerar o orçamento da Organização e esta livrar-se-ia de uma crítica em que há unanimidade.
Voltarei ao tema.

4 comentários:

elis disse...

oi, fernando!

acabei de conhecer seu blog! estou gostando muito dos relatos de suas participações nessas ultra-aventuras! estou treinando para participar de uma ultra de 75km em maio de 2011, e por isso me interesso muito pelos blogs de corredores que vivem a enfrentar essas distâncias!

achei muito interessante essa prova que você relatou! já tinha lido sobre ela no blog pára-que-não-pára, e confesso que fiquei fascinada! mas pelo que li do relato de vocês, o tempo foi o grande vilão, e isso diminui a grandeza da prova, e o valor de seus muitos desafiantes!

passo a seguir seu blog, em busca de mais aprendizado para minhas futuras experiências no fascinante mundo das ultradistâncias!

Vitor Veloso disse...

Amigo Fernando,
Não participei na prova, não estar eu próprio no terreno, mas por ter já vivido outras aventuras, estou plenamente de acordo com tudo que diz, um pouco mais de consideração por "todos" os atletas.
Agora a frustração e grande para quem não conseguiu atingir os objectos, mas intenção no fundo e de lá voltar, e se me for possível também estarei na próxima edição.
Forte abraço
Vitor

Mário Lima disse...

Olá Fernando

A minha intenção ao dar a minha opinião, é o de não entrar em polémica seja com quem for, até porque tenho uma virtude, dou a minha opinião sem nunca ler primeiro a opinião dos outros.

Leio o tema e comento, e raramente leio os comentários seja de quem for. Comentei, e "andor", conforme se diz na minha terra.

Há quem faça o contrário, lê primeiro as opiniões dos outros e depois comenta, não sobre o tema em si mas sim sobre o comentário deixado. O importante é o que quem escreve nos tem para transmitir quanto à sua leitura da prova efectuada e a nossa opinião sobre a mesma.

O Moutinho é uma excelente pessoa. Só o conheci na "Geira Romana" e tenho uma boa opinião sobre ele. Sei o que ele falou sobre as provas realizadas por ele, e ele não escondeu que quando o insultam no fim da prova é sinal que a prova teve sucesso. Isso, ele disse-o à minha frente e à frente de muitos amigos no dia anterior à Geira em Caldelas.

Admiro-o por fazer provas deste calibre, inéditas em Portugal, mas tudo tem um limite, e esse limite, na minha opinião foi ultrapassado nesta prova da Freita.

Disse alguém que todos sabiam ao que iam, é mentira. A prova foi alterada do ano anterior para este e logicamente a extensão da mesma. Ninguém sabia o que os esperava, e dizer que com o Moutinho as provas são assim, é o mesmo que dizer que quando houver uma prova onde esteja lá o nome do Moutinho eu não apareço, pois pode-me ser pedido para fazer um túnel numa montanha para poder chegar a outra (fora o exagero do exemplo).

Estive a ler este teu tema e todos os outros escritos sobre a prova no Mundo da Corrida. Alguém que bate com a cabeça numa pedra em pleno rio, só não desmaiou por mero acaso e não foi pelo rio abaixo, sem lá estar ninguém da organização isso é Trail?

Alguém que sabe que tem 15 h para finalizar, com a meta à "vista" desiste depois de tanto sofrimento, sabendo que vai ser desclassificado porque ultrapassou o tempo e recebe um aviso da esposa de que não valia a pena finalizar porque o Moutinho lhe afirmou que assim seria, isso é Trail?

Eu estive perdido no Gerês, com uma lesão, conforme tu leste, não tinha ninguém para me auxiliar, o mesmo se passou agora na Freita. Se isso é para captar atletas, e não só uma elite, para uma nova vertente do atletismo que se quer mais participativa, depois de lido este teu tema e de todos os outros que nela participaram fogem logo a sete-pés. Para "sofrer" q.b. já basta aquela que a vida nos dá, agora numa prova que se quer de sofrimento sim, mas que vá para além do razoável, isso não.

Mas se isso é Trail quem sou eu para contrariar?! A mim na Freita não me apanham não, e pelo que li, muitos mais, a partir deste ano, pensam em lá não voltar. Está escrito, é só perder um tempinho para ler e não comentar um comentário que não é mais do que isso, um comentário e nada mais.

No fim da prova foi alterado o processo. Todos aqueles que acabaram a prova, fora do controle, seriam classificados na mesma. É dizer agora isso aos que ficaram pelo caminho por saberem que chegariam fora do tempo previsto. Ou talvez fosse melhor, eles recomeçarem no ponto de desistência e fazer o resto da prova. Pelo menos ficava-lhes a consolação de terem feito a Freita.

Ah, e que fique claro que nada tenho contra o Moutinho. É um privilégio correr nas provas dele e acabar bem, como o farei na Geira no próximo ano se não houver “novas” invenções.

Abraços Fernando.

Jorge Branco disse...

Caro Fernando
Com toda a polémica que se tem levantado em torno da Freita só me resta uma solução: o Último Quilómetro vai ter que dizer alguma coisa sobre a matéria!
Nunca pus os pés na Freita (infelizmente) mas penso que tenho autoridade para abordar um pouco a temática das provas montanha pois já ando nelas (muito modestamente) há muitos anos.
Por isso vou começar a puxar pela massa cinzenta e brevemente vou meter-me ao barulho. Provavelmente vou “apanhar” mas nada que se compare com os belos empenos que já apanhei por essas serras acima e abaixo (e pode acreditar que para baixo é bem pior.).
E depois a vida é muito ridícula e tudo é muito relativo: Há quem se lesione num “jogo de futebol nocturno” (rápidas melhoras amigo Adelino!) e quem consiga acabar a Freita sem mazelas de maior.
Mas O ALCATRÃO FAZ MAL A SAÚDE! (excepção ou alcatrão da zona de São João das Lampas!)
Grande abraço!